Arquivo de Dezembro, 2007

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O volte-face

Dezembro 28, 2007

Porto, 23:45 – Cemitério de Agramonte

 

Pedro e Mary chegaram ao local combinado no carro de Pedro. Estacionaram num ao lado da entrada do cemitério e aguardaram dentro do carro.

DeCosta tinha organizado tudo durante a tarde e principio de noite. Tinha disposto uma equipa de apoio composta por dois elementos, Fidalgo e Margarida. Embora ambos tivessem pouca experiência no terreno serviriam de equipa de apoio, caso as coisas não corressem conforme tinha planeado. Ambos aguardavam o desenrolar dos acontecimentos a uma distância segura dentro de uma carrinha fechada equipada com o que de mais moderno existia em equipamento de espionagem.

“Está tudo a correr conforme planeado.” – Disse DeCosta através do auricular de Pedro e Mary.

“Eu não sei, pá. Não gosto deste sitio. Dá-me arrepios”

O telemóvel de Pedro toca. Era Teresa.

“Bolas a Teresa, logo agora.”

“Diz minha querida. Que se passa?”

“ Que se passa… Não te vejo há quase 24 horas e ainda me perguntas que se passa. É preciso ter lata.”

“Tens muitas explicações a dar meu lindo. Mas também não te liguei para isso, tens aqui uns senhores que te vieram procurar, como é que o senhor disse que se chamava…”

Do outro lado, Pedro ouviu o nome do homem que o procurava e a sua expressão passou da indiferença ao terror.

“Lourenço… Disseste Lourenço? Corre-os de casa e chama a policia.”

Tentou sussurrar Pedro, mas sem sucesso, Lourenço já se tinha apoderado telefone.

“Ora viva meu caro Pedro. Como tem passado o senhor? Sabes, sempre quis saber como vivia um humilde vendedor de jantes. Sim senhor… Uma moradia de dois pisos no centro do porto… Uma mulher jeitosa… hummm, hummm”

“Deixa-a em paz” Sussurrou Pedro aterrorizado. Ao seu lado Mary, que não se tinha apercebido ainda da conversa interpelou-o.

“Pedro, larga isso, namoras depois. Parou uma carrinha ao nosso lado, devem ser eles.”

“Ora vês, a tua amiga tem razão. Devias prestar mais atenção ao trabalho” Disse Lourenço do outro lado do telefone. E continuou.

“A carrinha que parou ao vosso lado é para vos transportar. Como já deves ter-te apercebido, eu não vim a tua casa para ver o imóvel, nem a tua mulherzita irritante. Digamos que vim aqui buscar uma garantia de que tu te vais portar bem.”

“Canalha… Quando eu te apanhar nem vais ter tempo de falar, e quando voltares a tocar o chão já estarás morto. Cobarde…” – Disse Pedro quase a espumar de raiva.

“Mary, temos de entrar naquela carrinha. Ela vai-nos levar ao Othelo.”

“Eh pá, espera lá… Com quem estavas tu ao telefone então?”

“Era o Lourenço… Ele raptou a Teresa como segurança colateral.”

“Porra pá, esta cena vai de mal a pior”

“Que queres que faça? Queres que arrisque a vida da Teresa?”

“Tu fazes bem a ideia do que nos pode acontecer se cairmos nas mãos do Lourenço, não sabes? Lamento, mas não temos alternativa… Temos de optar pelo bem maior, a nossa querida Madeira.”

Pedro baixou a cabeça até tocar com ela no tablier do automóvel. Não consegui conter as lágrimas, afinal, podia já não gostar dela, mas era a sua esposa, tinham passado bons momentos juntos.

O casamento de ambos tinha-se deteriorado com o tempo. A ausência de filhos, muito por culpa dele, que não queria, pensando precisamente que, com a vida que levava era um risco demasiado alto.

Teresa nunca tinha compreendido, como podia ela compreender… Para ela, ele era um simples vendedor de jantes.

Agora cabia a ele decidir sobre o destino dela, como se fosse um juiz e carrasco e ela estivesse no corredor da morte à espera da execução.

Mas a decisão estava tomada… Recompôs-se como pôde. Tirou a arma do coldre por debaixo do braço e engatilhou-a.

Mary seguiu-o nesse ritual.

 

Abriram as portas do carro quase em simultâneo e dirigiram-se para a carrinha.

Já não havia volta atrás. De um lado Othelo e o futuro da organização que, a todo custo havia que resgatar. Do outro Teresa, que seria sacrificada para poderem conseguir esse fim.

 

(continua)

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Em busca de Othelo – Parte II

Dezembro 22, 2007

A primeira sensação que o assalta é de um frio imenso. Quase não sente as extremidades dos dedos e das orelhas. Parecia que estava dentro de um frigorifico.Depois, uma dor de cabeça lancinante, parecia que lhe tinham espetado uma agulha no cérebro.

Com custo começa a abrir os olhos.

“Poooorrrrrraaaa… Mas que é isto?”

Tentou levantar-se para se aperceber que par de olhos eram aqueles que o fitavam, mas não conseguiu, tinhas as mãos e os pés atados.Rolou para o lado para se afastar daqueles olhos sinistros, mas eles pareciam persegui-lo. Eram uns olhos sem brilho e parados. Olhou melhor e apercebeu-se do que era.

“Ufa… São só um carapaus. Carapaus…??? Que diabo faço aqui, com um cardume de carapaus congelados como parceiros?”

Ouve passos. De repente a porta da arca frigorifica abre-se deixando entrar uma luz forte do exterior.De seguida, uma voz que vinha da luz, como se de uma entidade divina se tratasse, ecoa.

“Então o nosso prisioneiro, dormiu bem?”

A voz era de um homem. Tinha um sotaque característico, o acentuar dos rr’s deixava adivinhar que se tratava de alguém oriundo da península de Setúbal, ou então germânico.Tentou fixar a cara do interlocutor mas a intensidade da luz impedia-o de o fazer.

 Vamos ver se os seus amiguinhos cumprem com o combinado, senão vais fazer uma visita às tainhas.”

“ Acho melhor não, olhe que já me afeiçoei a este carapau e ele é muito ciumento.”

“Olha , olha… Temos um engraçadinho… Não te vais rir depois de falares com o meu colega alemão…”

“Paffff…”

Vinda aparentemente do nada uma mão aplicou uma bofetada no interlocutor de Othelo.

 “Já te disse para terres tento na língua, Schwein …”

A voz que agora ele ouvia era de outra pessoa. Era uma voz fina, quase feminina, com sotaque germânico indiscutível.

“Eh pá, voltas a tocar-me, nem sei que te faço…”

“Schiuuu, tá calado e trrás o menino parra a saleta, schnell. Mas antes dá-lhe um banho de perrfume, que o cheiro não se aguenta. Ainda gostava de saberr de quem foi a ideia brrilhante de o trazerrem parra aqui?”

“Que querias, em Matosinhos não havia outro local com…”

“Pafffff…”

Scheiße. Essa tua língua ainda vai serr a tua morrte.”

“Mau, mau Maria. Querem ver…”

“As meninas se quiserem podem resolver isso no quarto, não?”

“Tu cá parra mim tens a mania que és engrraçado. Vamos verr como te rris depois de levarr com o meu wurst na crremalheira, heheheheh…”

Othelo foi literalmente arrastado pelo chão até um compartimento onde lhe despejaram em cima uma água perfumada cujo cheiro em pouco ou nada melhorava o que já estava entranhado nas roupas e corpo, devido à estadia na câmara frigorifica.Sentaram-no noutra sala, em frente a uma mesa. Ao fundo havia um candeeiro com uma luz muito forte direccionada para a cara dele.Apercebeu-se de alguém ter entrado mas quando olhou para ver quem era sentiu uma dor lancinante na cara, como se lhe tivessem batido com um ferro. Ficou a sangrar do sobrolho e sentiu que dentro da boca havia algo solto. Era um dente.

“Espero que tenha sido o dente do siso, já tinha a cirurgia agendada para a semana. Assim poupo 150 €. Nem sei como lhe agradecer?”

“Folgo em saberr que tas de bom humorr… Assim vai serr mais fácil arrancarr-te o que querremos saberr, não é?”

Othelo cuspiu o dente para o chão e endireitou-se na cadeira. Preparava-se para o que estava para vir.

“Os meus clientes gostarriam de saberr alguns porrmenorres da tua viagem a Lisboa.”

“Eh pá, tão com azar então. É que eu já não vou a Lisboa desde o passado mês de Julho. Fui lá ver o Porto com o Benfic…”

“Paff…”

A violência da bofetada foi tal que parecia que a cabeça dele is saltar dos ombros.

“Mentes… Sabemos que estiveste em Lisboa na semana passada, agente Petrov.”

Othelo demorou um pouco a recompor-se da pancada, Voltou a endireitar-se na cadeira, tentou fitar o seu interlocutor através da luz intensa mas sem sucesso.

“Uiii, estamos mal amigo. Vais ter muito que explicar aos teus clientes. É que eu não sou esse Petrov que procuras. Chamo-me Othelo e volto a dizer-te que não sei do que falas, nem fui a Lisboa coisa nenhuma.

O seu interlocutor fez um esgar de raiva. Levantou-se e dirigiu-se ao seu colega que estava junto à porta.

“Onde estão os documentos deste individuo?”

“Err… Documentos, err…”

“Anda, mostra-mos, schnell.”

“Errr… Documen… Ahhh, já sei!! Pousei-os em cima daquela mesa ali… Já vou buscar. Não precisas de te enervar Riederer. Opss…”

Riederer?… Pensou Othelo. O nome não lhe era estranho. Seria o famoso torturador da Gestapo Wolfgang Riederer.

“Wolfgang… Wolfgang Riederer.”

“Vês idiot, este fulano é mais inteligente do que tu, paspalho. Devia matar-te de imediato, Schwein.”

“Agorra já sabes quem sou, também sabes o que te esperra se não colaborrarres.”

Wolfgang Riederer tinha sido um famoso torturador da Gestapo. Conhecido como “O Palhaço Patola” por utilizar uma técnica de tortura consistia em levar os torturados à quase loucura através das cócegas aplicadas aos pés e sovacos com penas de ganso patola, e só de ganso patola.O seu assistente trouxe finalmente os documentos apreendidos e entregou-os a medo a Riederer.Riederer franziu o sobrolho ao mesmo tempo que lia, incrédulo, os papeis que lhe haviam sido entregues.

“Parrece impossibel… Tu não és capaz de fazerr nada bem? Levem-no para dentrro novamente, rrealmente não sabe de nada, sabes porrquê ESTÚPIDO? PORRQUE ÉS UMA BESTA, TENS O CÉRREBRO DO TAMANHO DE UMA AMIBA.”

Disse Riederer aos berros.

“Vamos terr de mudarr de estrratégia… Que horras são?”

“São 14:50…”“Temos só nove horras para o encontro. Vai ser aperrtado mas acho que tenho a solução. MAS TU NÃO VENS COMIGO ESTÚPIDO, FICAS AQUI A CUIDARR DO PRRISIONEIRO.”

Othelo foi novamente enfiado dentro da arca frigorifica.

Entretanto, Pedro e Mary haviam chegado ao local da sede de operações da SIM no Porto. Situava-se nas traseiras de um edifício bem no centro da Rua de Cedofeita. Na frente, a palavra “Calor da Noite” em letras debruadas a néon.Ali funcionava durante a noite um bar de alterne que servia de fachada perfeita às actividades do SIM. Por outro lado era um bar frequentado pelos novos ricos do burgo. Jogadores de futebol, construtores civis, advogados, juízes e outros. Este facto tornava a actividade do SIM bastante mais fácil. Ninguém resistia aos encantos das beldades do clube e depois de uma noite bem passada não havia segredo que escapasse das bocas babadas dos clientes.Mary e Pedro  tiveram de bater à porta, àquela hora o clube encontrava-se encerrado.Do outro lado alguém lhes pediu a senha de acesso.

“Com que é que vamos derrubar a republica?” Perguntou a voz de dentro do clube.

Com bananas.” Respondeu Mary.

Acto continuo, a porta abriu-se e os dois entraram. Dirigiram-se para a sala do fundo.

O acesso ao centro de operações era feito através dos lavabos e havia uma entrada para senhoras e outra para homens. O processo era simples. Haviam duas sanitas, uma em cada lavabo, cujo acesso era efectuado através de uma porta que se encontrava fechada, e da qual apenas possuíam chave os operacionais da organização.Assim Mary e Pedro sentaram-se cada um na sua sanita e carregaram na descarga do autoclismo. Ouviu-se um ruído metálico e ambas as sanitas e as paredes por detrás delas rodaram 180º exibindo o interior da sala de operações.Era uma sala acanhada onde mal cabiam os 4 operacionais que durante as 24 horas do dia mantinham o posto em funcionamento. A sala estava equipada com um ecrãn gigante em uma das paredes onde se podiam ver imagens de satélite e imagens das câmaras de vigilância da cidade, cujo sinal tinha sido interceptado pelo SIM.

“Já sabemos o que aconteceu.” Diz DeCosta, mal Mary se aproxima dele.

DeCosta, era o responsável pela contra informação e  pela vigilância remota de todos os operacionais no terreno. Era de longe o membro da equipa que melhores qualificações tinha. Tinha estagiado na “Scotland Yard” no famoso MI5, até que um dia teve de abandonar por um caso de saias. Nessa altura foi convidado pelo governo regional para integrar a SIM, convite que aceitou de imediato, não por ser uma boa proposta de trabalho, mas poeque tinha um fraquinho por Mary, que conhecera numa acção de formação em Londres.

“Onde está ele?” Perguntaram Mary e Pedro quase ao mesmo tempo.

“Calma, calma. Ele está aqui.” Disse DeCosta apontando no mapa para a zona das docas do porto de Leixões.

“Não conseguimos localizar o ponto exacto, o sinal do localizador dele é demasiado ténue para ser captado pelo satélite. Mas sabemos mais” Disse enquanto abria um dossier e espalhava na mesa algumas fotos.

“São estes os responsáveis. Também sabemos que o alvo não era ele.”

“Então quem era o alvo?“

“O alvo era o Pedro. O responsável é o Lourenço, T.P. Lourenço.”

Uma sensação de revolta tomou conta de Pedro. Saber que afinal era ele o alvo e não o Othelo. Por outro lado sabia que a brigada do agente Lourenço era das mais temíveis e que recorreria a todos os meios para conseguir os fins, e isso, corroía-lhe as entranhas como se tivesse bebido um cocktail de acido sulfúrico. (continua)

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Em busca de Othelo – Parte I

Dezembro 19, 2007

Pedro conduz o automóvel a alta velocidade. Cruza os semáforos sem se preocupar com a cor deles, vermelhos, amarelos, nada o faz parar. Vira na Rua de Ceuta e estaciona na Praça Filipa de Lencastre.

Sai do carro  correr e entra no hotel Infante D. Henrique. Entra como se fosse o dono do sitio. O recepcionista tenta interpelá-lo mas é tarde demais já tinha entrado no elevador.

Carrega freneticamente no botão do ultimo piso. O elevador percorre os andares vagarosamente… O tempo para chegar ao ultimo piso parece nunca mais chegar.

O elevador para, a porta abre-se. Pedro dirige-se à suite a passo acelerado.

Bate à porta… Bate novamente… Do outro lado alguém parece dizer, “Já vou…”

Era a voz de uma mulher. Ouve-se o barulho da fechadura. A porta entreabre-se mas Pedro abre-a abruptamente projectando para trás quem estava por detrás.

“Sabia que estarias aqui.” – Disse Pedro ofegante.

“Que se passa? Porque estás aqui? E a estas horas? Perdes-te o juizo?” – A interlocutora estava incrédula com a surpreendente visita.

Pedro fixou-a com o seu olhar.

“Não sabes o que aconteceu?”

“O que foi? Estava a dormir.”

“Raptaram o Othelo…”

“Rapt… Quando? Como? Onde? Quem?”

“Há pouco, levaram-no enquanto telefonava para ti. Como podes não saber? Mentes…”

“Desculpa… A mim não me ligou ninguém esta noite. Ao contrário, eu é que me fartei de lhe ligar. Queria saber de ti. Da viagem a Lisboa. E depois, porque haveria eu de saber do paradeiro dele?”

“O nosso disfarce foi exposto, só pode ter sido isso, de que outra forma poderiam apanhá-lo.”

“Espera, pensa um pouco. Viste quem o levou?”

“Não, estava dentro do pub, ele disse-me que ia à rua fazer uma chamada para ti. Mas o tempo passava e dele nem sinal. Começei a ficar intrigado com a demora. Eis senão quando, a empregada de mesa me traz este papel.” – E entrega-lhe o papel, já bastante amarrotado.

Mary pega no papel e começa a ler.

Mary era a responsável pela SIM da qual Othelo e Pedro faziam parte. Eles eram os operacionais e ela a coordenadora logistica das operações.

A SIM– Serviço de Informações da Madeira, mais conhecida pela Camachorra era a responsável pelo desenvolvimento de acções de espionagem e contra-espionagem com vista à obtenção da independência da madeira em relação ao continente.

A célula à qual presidia com pulso de ferro e determinação, era a responsável pela sabotagem de estudos do governo da república para a instalação de grandes infra-estruturas no continente.

Actuavam como vendedores de jantes, infiltravam-se nos ministérios da metrópole, com o intuito de servir a sempre insaciável vontade de renovar o parque automóvel dos ministérios.

A constante troca de viaturas fornecia-lhes o salvo conduto para entrar nos meandros dos ministérios. Por razões insondáveis, as jantes que vendiam eram bastante pretendidas pelos ministros. Talvez fosse pelo facto de as mesmas poderem ser personalizadas ao gosto de cada um. Por exemplo, o ministro da economia tinha encomendado 30 pares de jantes com raios em forma de pás de aerogeradores. Já o ministro das obras públicas queria os raios em forma de avião com os nomes das quatro localizações possíveis para o futuro aeroporto de Lisboa gravadas no centro. Dizia que, a jante cujo pneu furasse primeiro era onde ele ia construir o aeroporto, por isso mandou por a jante da Ota e a do Montijo do lado direito, tendo dado instruções ao motorista para que não poupasse os passeios.

Mas considerações à parte, o esquema tinha funcionado bem até agora, mas este acontecimento ameaçava a integridade da célula e havia que resgatar Othelo o quanto antes.

Mary pegou no casaco e na sua mala de executiva e saiu com Pedro.

Faltavam menos de vinte e quatro horas para o prazo e tinham de fazer os possíveis por encontrá-lo antes, senão tinham de se expor aos raptores, e isso era coisa que não estava nos planos de Mary.

 

(continua)

 

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O Rapto

Dezembro 19, 2007

“Otheloooo, por aqui amigo…?”

“A que devo a tua visita pá?”

Comprimentaram-se com um longo abraço e uma palmada nas costas, à maneira dos bons amigos.

Othelo aproveitou para murmurar ao seu ouvido…

“Inventa qualquer coisa, precisamos de sair rápido.”

Pedro ficou sem acção por instantes. Como ia ele explicar a Teresa que, acabadinho de chegar, tinha de sair…

Othelo vendo o embaraço do amigo deu a volta à situação.

“Preciso de falar contigo a sós.”

“Desculpa Teresa, mas vou-te roubar o marido por uns momentos.”

“Vamos ali ao café da esquina tomar um copo. Pode ser?”

Teresa não gostou muito da ideia.

“Então Othelo, ele ainda agora chegou e já o queres afastar de mim. Ainda por cima deve estar cheio de fome.”

“Por acaso comia qualquer coisita.” Disse Pedro.

“Nada disso. Anda daí, comes lá uma francesinha.” Replicou Othelo

“Vão lá mas volta em breve Pedrucho, estou com saudades.”

Pedro beijou Teresa no rosto e aproveitou para lhe dizer ao ouvido…

“Pedrucho? Já te disse para não me chamares isso em público, e principalmente com este melga do Othelo por perto.”

“Vai ser um prato cheio com essa história do pedrucho, caramba…”

“Então pá, anda daí, namoras depois. Vais ter muito tempo.”

Pedro voltou a pegar no casaco e saíram ambos para a rua. A noite estava invulgarmente fria para a época, mas o verão desse ano estava também estava bastante atípico. Estava-se em Agosto e a temperatura ainda não tinha subido acima dos 26ºC e naquela noite estavam uns miseros 15ºC e uma nortada de fazer cortar as orelhas.

 Chegaram ao “Caneco”, um pub bastante acolhedor, o lugar ideal para duas pessoas conversarem calmamente e aliviarem o stress do dia.

Sentaram-se numa mesa no canto da sala.

“Então que se passa?”  - Perguntou Pedro.

“Espera, vem aí a empregada de mesa…”

“Boa noite, o que vão desejar os cavalheiros?”

“Winter… Nome engraçado.” – Disse Pedro ao ver o nome da empregada que no crachá agarrado à lapela do uniforme.

“Esse nome vem mesmo a calhar… Com este tempo, hehehehe?”

“É verdade heheheh.” – Sorriu a empregada.

“Então o que vai ser?”

“Eu quero um licor Beirão com gelo” – Pediu Othelo.

“És mesmo parolo pá. Isso lá é bebida de gente…”

“Eu não quero bebidas de gato, quero uma imperial e um prego no pão para começar, por favor.”

A empregada afastou-se e Othelo abeirou-se do amigo.

“Jeitosa a moça… Moro aqui ao lado e ainda não me tinha apercebido deste pub”

“Pedro.”

“Hum.”

“A chefe tá furiosa contigo pá.”

“A chefe? Furiosa? Que culpa tenho eu de não ter podido aceder à net.”

“Olha, a culpa é dela que me arranjou um hotel manhoso onde nem net havia.”

“E para piorar ainda mais, o desgraçado do quarto em que fiquei tinha janela voltada para um bordel. Pode haver coisa pior para um gajo que não vê a mulher durante uma semana.”

“Eh pá, realmente… Mas isso de pouco te vai valer. Ela quer ver-te hoje.”

“HOJE” – Exclamou pedro em voz alta.

“Schiuuuu, pá, fala baixo, então”

“Hoje, nem pensar. Que vou dizer à Teresa?”

“Eh pá, não sei, mas tens de vir.”

“Olha vem aí o comer.”

“Pera lá… Summer? Hahahaha, Há pouco veio cá a Winter e agora a Summer, ui…”

“Somos irmãs gémeas. Aqui têm o seu pedido.”

“Gemeas, ai meu deus… Vocês devem ser o sonho de qualquer homem. Bonitas de morrer e gemeas… Deixa-me ser teu amigo, heheheh.”

“Vá lá, então… Respeitinho é bom e eu gosto” Disse Summer  incomodada com a afirmação de Pedro.

“Othelo! Vou passar a vir comer aqui todos os dias pá. Quem sabe ainda encontro a Autumn e a Spring, vai se lá saber se não são quadrigémeas”

“Anda lá come isso e vamos embora, tenho aqui já 3 chamadas da chefe adivinha o que ela quer?”

“Ela que espere…”

Pedro degustou o seu prego no prato como se fosse a ultima refeição de um condenado.

“Pedro… É a chefe outra vez. Que lhe digo?”

“Dass… Diz-lhe que amanhã falo com ela pá.”

“Ok, ok, eu digo, depois não te queixes.”

“Olha, chama mas é aí a empregada de verão para trazer outro prego.”

“Tas muito calado hoje Othelo, que se passa? Não é só o assunto da chefe, pois não?”

“Eh pá, não. É a Juana. Vai para quinze dias que não a vejo e ela nem dá cor de si.”

“Uiiii, isso é mau sinal” – Disse Pedro franzindo o sobrolho.

“Olha, olha, lá vem a mana de verão. Ai minha rica menina… Se me apareces pela fresca…”

“ Enquanto acabas de comer vou lá fora falar com a chefe, ok?”

“Vai lá, vai…”

Pedro já tinha acabado de comer há quase uma hora e Othelo ainda não tinha voltado.

Demorou este tempo todo a aperceber-se pois tinha estado atento às manas das estações.

Estava a interrogar-se sobre o paradeiro de Othelo quando a mana Winter lhe entrega um papel dobrado.

“Alguém lá fora me pediu para lhe entregar isto.”

“Humm, quem?”

“Não sei, não disse quem era.”

Pedro abriu o papel, dentro encontrava-se a seguinte mensagem:

 

            “Se queres voltar a ver o teu amigo, vem amanhã à meia noite, ao cemitério de agramonte. E nada de policia, senão o jeitoso vai ser comida para tainhas.”

 

Pedro ficou estarrecido, correu com as mãos os bolsos do casaco em busca do telemóvel, mas lembrou-se que o tinha deixado em casa.

Levantou-se, deixou umas notas em cima da mesa e correu até casa. O seu melhor amigo corria perigo de vida, era seu dever salvá-lo.

 

(continua)

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O regresso

Dezembro 19, 2007

- O Porto é tão bonito visto daqui…, pensou ele, enquanto o comboio cruzava a ponte S. João rumo à estação de campanhã.

 

Para trás ficara uma semana difícil. Negociações difíceis com clientes, noites mal dormidas, mas acima de tudo, o facto de se ter visto privado de se encontrar com a sua adorada deusa.

 

Não via a hora de chegar à estação. No comboio não havia net, mas na estação havia um hot spot e ele estava em pulgas para desembarcar.

 

O comboio percorre os últimos metros até se imobilizar na plataforma, mas ele já estava junto à porta espera do momento final em que poderia sair daquela lagarta metálica e ir sentar-se no banco mais próximo, ligar o portátil e finalmente poder falar com ela.

 

23:59 – com um suave guinchar dos travões a composição imobiliza-se. Como um foguete ele sai disparado porta fora e desata a correr pela plataforma até entrar na gare.

 

Senta-se no primeiro banco que lhe aparece, nem se apercebe que quase se sentou em cima da cabeça de um mendigo, que pelo odor deveria estar conservado dentro de uma garrafa de álcool. Mas nada disso o perturbava. Arrancou o portátil da pasta…abriu-o…carregou no botão de ligar e…nada.

 

- POOOOOOOOOOORRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

 

Pombas esvoaçaram, o movimento das pessoas parou como se o tempo também ele tivesse parado. O mendigo deu um salto e caiu redondo no chão, mas imediatamente voltou ao seu sono profundo.

Reparou que toda a gente olhava para ele, também não era para menos. A sua expressão era um misto de terror e desalento. Os olhos esbugalhados e raiados de sangue, o cabelo desgrenhado e os braços no ar segurando o portátil prestes a ser estilhaçado contra o chão, mas parou…, conteve-se, olhou à sua volta e entre dentes comentou…

 

- Trilhei o dedo na tampa, eh eh eh…

 

As outras pessoas voltaram à sua vida, as pombas voltaram aos beirais para dormir.

 

- Como é que me pude esquecer de carregar esta porcaria, porra. Disse para os seus botões.

 

Enfia o portátil na mala e corre…

 

Apanha o primeiro táxi que lhe aparece pela frente e dirige-se para casa.

 

Durante a viagem apenas um pensamento o ocupa, chegar a casa, ligar o computador e falar com ela.

Quando pensava nela até as lágrimas lhe vinham aos olhos, tamanha era a saudade.

Mas em casa sabia que se tinha de conter. Afinal era casado e a esposa não era mulher para brincadeiras.

Uma vez por causa de um mal entendido com uma empregada de mesa num restaurante ficaram sem se falar durante um mês.

Dependia da esposa para manter o nível de vida que mantinha. Todos aqueles gadjets custavam bom dinheiro e não era propriamente com o seu salário de vendedor de jantes que os podia comprar.

Já a esposa, vinha de uma família abastada, com propriedades. Além do mais ela era uma brilhante advogada. Como se conheceram…isso é para outro episódio.

 

O nosso amigo tinha chegado a casa. Ao entrar reparou que havia luz na sala.

Não era normal àquela hora, mas pensou que provavelmente a esposa havia adormecido na sala com ela ligada.

Ao chegar à porta ouviu uma voz de homem e risos que vinham do interior da casa, aí ficou mesmo com a pulga atrás da orelha.

 

- Mau, pensou, tu queres ver…

 

Abriu a porta e ouviu comentar…”olha chegou”.

 

Pousou a mala, tirou o casaco. Nesse instante a esposa abeira-se dele e diz-lhe:

 

- Tens uma visita.

- Uma visita?

- Quem?

- A estas horas…

- É o Othelo, disse-lhe ela.

 

- Othelo, que faz esse gajo aqui a estas horas, boa coisa não deve ser. Disse para si.

 

Armou um sorriso amarelo na boca e dirigiu-se para a sala.

 (continua)

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Prólogo

Dezembro 19, 2007

O cenário…, Lisboa, século XXI…

Estamos a poucos dias de Dezembro…, o nosso artistinha, um metrosexual nortenho de visita de trabalho à capital do império.

Como todo o metrosexual que se preza, o nosso artistinha chegou a St.ª Apolónia todo artilhado com gadjets  de toda a ordem para não perder pitada do mundo e do trabalho, mas principalmente para o manter ligado à sua segunda vida.

Sim, o nosso herói não tinha suficientes problemas e ralações com a vida real tinha de arranjar uma vida virtual… masoquista? Não, afinal ele tinha uma deusa graças a essa nova vida, e mais do que isso, podia ele próprio ser um deus, mas isso são outras histórias…

O nosso herói chaga ao quarto do hotel. O hotel não é muito requintado, afinal o patrão, forreta, não quer gastar muito dinheiro com esta viagem de negócios. Por isso mesmo o nosso artistinha viaja sozinho, como sempre.

Mas como dizia, o hotel não era um de cinco estrelas, mas dava para dormir de dia, já que de noite era impossível.

Essa impossibilidade advinha de dois motivos. O primeiro derivava da localização do hotel e do quarto atribuído ao nosso artistinha e o segundo advinha do seu vicio, a sua segunda vida.

Quanto ao primeiro motivo, nada havia a fazer, deram-lhe um quarto mesmo em frente a um bordel e o corrupio de homens a entrar e a sair, o barulho dos gemidos de prazer que escapavam das janelas entreabertas penetravam-lhe no ouvido de forma insuportável. Se ainda ao menos eu estivesse com a minha deusa, hummmmm… pensava o nosso herói.

Mas lembrou-se, que podia estar com ela, embora de forma virtual, como sempre o fizera. Afinal em toso esse tempo em que conversavam e partilhavam juntos as sua histórias do dia à dia nunca se haviam conhecido pessoalmente.

Mas, voltando ao assunto, tirou o seu laptop da mala e colocou-o sobre a mesita em frente à sua cama e ligou-o.

Tinha solicitado no check-in do hotel uma ligação de rede para aceder à net. O recepcionista disse-lhe que estivesse descansado, eles tinham netcabo, do melhor, dizia ele…

Descansado o nosso homem lá ligou o computador à tomada de rede e abriu a porta para a sua segunda vida…

Entretanto do outro lado da rua vinham os gemidos de prazer que o enlouqueciam…

E pensava ele…, se ao menos tivesse a minha deusa comigo…

Mas tava quase.

O programa arrancou sem problemas, começou a vislumbrar o novo mundo que se lhe abria de par em par. Verificou as companhias que estavam online e… lá estava ela, a sua deusa.

Correu com sofreguidão com os dedos para o teclado, e começou a escrever…

            Boas, minha deu…;

 A net caiu.

- Bolas, deixa-me tentar…

Novamente o programa se reinicia…

            Deu…

Agora nem deu para nada… tinha crashado outra vez.

- Ai o car…, querem ver que esta m… não entra.

Zangado abre a porta do quarto e desce à recepção…

- Ohhh chefe, então esta cena da net funciona a broa?, perguntou com ar zangado ao recepcionista.

O rapaz atrapalhado nem sabia o que dizer.

- Er…, não sei, deixe-me ver…

- Bê lá senão bamos ter problemas…

- Até te parto todo…, disse ele entre dentes.

Mas mal sabia ele da noticia arrasadora que o esperava.

- A net tá em baixo durante esta semana por causa dos trabalhos na rua, desculpe.

- O melhor que lhe posso fazer é devolver-lhe o dinheiro.

A noticia apanhou-o como se um raio lhe caísse na cabeça. O cabelo ficou em pé, as mãos trémulas e, do canto do olho, caiu uma lágrima até ao queixo.

Desolado, regressou ao quarto e enterrou a cabeça no travesseiro.

Ia estar este tempo todo sem falar com a sua deusa…

Que martírio.

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Memória Descritiva e Justificativa

Dezembro 19, 2007

Carissimos, a pedido de muitas familias passam a ser publicados neste blogue os episódios da saga do Othelo, Pedro e companhia.

Aqui podem fazer a leitura integral dos episódios de forma sequencial e sem posts estranhos pelo meio.

O titulo do blogue pode mudar, está aberta a candidatura a sugestões com essa finalidade.

Boa leitura e até breve com mais um episódio…

Othelo Ayres

h1

Hello world!

Dezembro 19, 2007

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