
Prólogo
Dezembro 19, 2007O cenário…, Lisboa, século XXI…
Estamos a poucos dias de Dezembro…, o nosso artistinha, um metrosexual nortenho de visita de trabalho à capital do império.
Como todo o metrosexual que se preza, o nosso artistinha chegou a St.ª Apolónia todo artilhado com gadjets de toda a ordem para não perder pitada do mundo e do trabalho, mas principalmente para o manter ligado à sua segunda vida.
Sim, o nosso herói não tinha suficientes problemas e ralações com a vida real tinha de arranjar uma vida virtual… masoquista? Não, afinal ele tinha uma deusa graças a essa nova vida, e mais do que isso, podia ele próprio ser um deus, mas isso são outras histórias…
O nosso herói chaga ao quarto do hotel. O hotel não é muito requintado, afinal o patrão, forreta, não quer gastar muito dinheiro com esta viagem de negócios. Por isso mesmo o nosso artistinha viaja sozinho, como sempre.
Mas como dizia, o hotel não era um de cinco estrelas, mas dava para dormir de dia, já que de noite era impossível.
Essa impossibilidade advinha de dois motivos. O primeiro derivava da localização do hotel e do quarto atribuído ao nosso artistinha e o segundo advinha do seu vicio, a sua segunda vida.
Quanto ao primeiro motivo, nada havia a fazer, deram-lhe um quarto mesmo em frente a um bordel e o corrupio de homens a entrar e a sair, o barulho dos gemidos de prazer que escapavam das janelas entreabertas penetravam-lhe no ouvido de forma insuportável. Se ainda ao menos eu estivesse com a minha deusa, hummmmm… pensava o nosso herói.
Mas lembrou-se, que podia estar com ela, embora de forma virtual, como sempre o fizera. Afinal em toso esse tempo em que conversavam e partilhavam juntos as sua histórias do dia à dia nunca se haviam conhecido pessoalmente.
Mas, voltando ao assunto, tirou o seu laptop da mala e colocou-o sobre a mesita em frente à sua cama e ligou-o.
Tinha solicitado no check-in do hotel uma ligação de rede para aceder à net. O recepcionista disse-lhe que estivesse descansado, eles tinham netcabo, do melhor, dizia ele…
Descansado o nosso homem lá ligou o computador à tomada de rede e abriu a porta para a sua segunda vida…
Entretanto do outro lado da rua vinham os gemidos de prazer que o enlouqueciam…
E pensava ele…, se ao menos tivesse a minha deusa comigo…
Mas tava quase.
O programa arrancou sem problemas, começou a vislumbrar o novo mundo que se lhe abria de par em par. Verificou as companhias que estavam online e… lá estava ela, a sua deusa.
Correu com sofreguidão com os dedos para o teclado, e começou a escrever…
Boas, minha deu…;
A net caiu.
- Bolas, deixa-me tentar…
Novamente o programa se reinicia…
Deu…
Agora nem deu para nada… tinha crashado outra vez.
- Ai o car…, querem ver que esta m… não entra.
Zangado abre a porta do quarto e desce à recepção…
- Ohhh chefe, então esta cena da net funciona a broa?, perguntou com ar zangado ao recepcionista.
O rapaz atrapalhado nem sabia o que dizer.
- Er…, não sei, deixe-me ver…
- Bê lá senão bamos ter problemas…
- Até te parto todo…, disse ele entre dentes.
Mas mal sabia ele da noticia arrasadora que o esperava.
- A net tá em baixo durante esta semana por causa dos trabalhos na rua, desculpe.
- O melhor que lhe posso fazer é devolver-lhe o dinheiro.
A noticia apanhou-o como se um raio lhe caísse na cabeça. O cabelo ficou em pé, as mãos trémulas e, do canto do olho, caiu uma lágrima até ao queixo.
Desolado, regressou ao quarto e enterrou a cabeça no travesseiro.
Ia estar este tempo todo sem falar com a sua deusa…
Que martírio.
[...] desencadeou-se tanta criatividade, que começou-se a sentir a necessidade de, à semelhança das Crónicas do Othelo, terem um espaço próprio. Pensei… e na verdade sem grande (ou nenhum) feedback dos autores [...]