O carro parou junto à vedação que delimitava o perímetro de segurança da base. Pedro tomou o cuidado de o esconder por detrás de umas silvas de forma a não poder ser visto da estrada que dava acesso à base, a mesma por onde, dali a instantes, haveria de passar a caravana que trazia Othelo.
O plano inicial delineado por DeCosta consistia numa abordagem directa à caravana. Seriam cortados pinheiros que se colocariam na estrada, formando uma barragem, e depois atacar-se-ia a caravana de surpresa.
No entanto Pedro pensou que tal plano, atendendo à desvantagem numérica que tinham em relação aos adversários e ao facto de possuir menor poder de fogo do que eles, era um plano suicida. Em alternativa pensou noutro, mais arrojado mas com mais probabilidades de sucesso.
Dirigiu-se à mala do carro e de lá tirou uma tesoura de cortar arame.
Mary que já havia pegado num serrote para dar seguimento ao plano inicial, viu com espanto o companheiro pegar naquela ferramenta.
“Pedro, vamos cortar arvores, madeira, paus… não vamos cortar ferro pá.”
“Tem calma, esse plano do DeCosta não me parece bom. Acho que não conseguimos ter sucesso com ele. Por isso engendrei outro. Anda, larga esse serrote e vem comigo.”
“Hummmm, tu agora já deste em discutir os planos? Que raio de novo plano é esse?”
“Anda cá.”
Pedro abeirou-se da vedação. Do outro lado via-se a pista de aterragem da base e os hangares com os aviões. No centro da pista estava um helicóptero parado, com os motores desligados. Era um EH101 – Merlin. Pedro conhecia bem aquela aeronave.
“Aquele é de certeza o helicóptero que vai transportar a cambada do Lourenço e o Othelo.” Disse Pedro apontando para a aeronave.
“Como podes ter tanta certeza?”
“Então… os outros aviões que eu vejo são todos caças. Não me parece que eles caibam todos dentro de um deles?”
“Sabes lá tu… aquilo pode ser como o concurso do mini. Vamos ver quantos cubanos cabem num F16? Ou coisa do género…” Disse Mary rindo.
“Tu e as tuas invenções, e depois o maluco sou eu? Bom vamos mas é tratar disto.”
Pedro pegou na tesoura e cortou a rede de modo a permitir a passagem para o interior da base.
“Hey… espera lá. Explica-me lá esse teu novo plano. Sempre quero saber como é que vou pôr o meu couro em risco.”
“Segue-me, conto-te enquanto andamos.”
A base aérea de Maceda, não era uma base fortemente vigiada. Actualmente tinha apenas funções de apoio ao corpo de tropas pára-quedistas sediado em S. Jacinto. De lá partia todas as semanas um C130 com pára-quedistas para largadas de treino sobre a praia de Mira. Fora isso, mantinha um F16 e dois outros caças Alfajet que faziam a patrulha da zona económica exclusiva da costa portuguesa, entre Viana do Castelo e Figueira da Foz.
Pedro e Mary chegaram a um edifício que parecia ser o principal do complexo. Entraram por uma porta que estava aberta e deram por si dentro do que lhes pareceu ser um balneário.
“Pedro, isto deve ser o ginásio…” Murnurou Mary.
“Schiuuuu, tá calada, não é nada disso, olha para estes uniformes.” Pedro apontava para dois uniformes de piloto que estavam pendurados num cabide.
“Esconde-te… vem aí gente.”
Ouviram-se passos na direcção deles. Esconderam-se por detrás de um armário.
“Para onde é que vamos voar agora?” Disse um dos homens pegando num dos fatos que estavam pendurados.
“Sei lá eu, a ministra é quem vai dizer.”
Pedro virou-se para Mary com o olhar de quem tinha acertado no jackot.
De repente ouve-se um barulho de um telemóvel a tocar.
Pedro arranca apressadamente o aparelho do bolso do casaco e desliga-o num ápice. No entanto não o suficientemente rápido para não ser ouvido.
“É o teu?” Disse um dos homens.
“Não, o meu não toca assim, além do mais está desligado, desligo-o sempre antes de voar.”
“Eh pá, meu também não é.”
Pedro levanta-se como se tivesse uma mola que o tivesse impulsionado, com a tesoura desfere dois golpes no ar, para um lado e para o outro. Ouvem-se dois corpos a cair no chão, inertes. Eram os pilotos.
Mary estava paralisada pela cena que se desenrolara perante os seus olhos.
“Vais ficar a olhar ou vais vestir esta farda e fazer o que combinamos?”
Mary quase num gesto mecânico vestiu o uniforme.
“Temos de esconder estes dois.” Disse Pedro.
“Mete-os dentro deste cacifo. Parece bem espaçoso.”
Pedro e Mary dirigiram-se para o helicóptero e assumiram as posições no seu interior. Pedro seria o piloto e Mary a co-piloto.
“Mas afinal quem era que te estava a ligar?”
“Sei lá, nem tive tempo para ver. Espera aí.” Pegou no aparelho e viu a chamada não atendida. Era a deusa. Há já tanto tempo que não se falavam, tinha logo de ligar naquela hora.
“Então quem era?”
“Ahhhh…Era o meu pai…”
A caravana para junto ao helicóptero. Da viatura da frente sai uma mulher que de imediato dá ordem para que o helicóptero seja ligado.
“Vamos lá a ligar isso, quero arrancar rápido.” Disse.
Os rotores começaram a deslizar lentamente adquirindo cada vez mais velocidade.
Pedro apercebeu-se que Othelo tinha entrado. Estava sentado nos últimos acentos com Lourenço ao seu lado. Á frente, junto a ele, estava aquela mulher maravilhosa. Ficou uns segundos a contempla-la.
“Então??? Vamos arrancar ou vamos ficar aqui a olhar para ontem.”
Pedro acordou daquele sonho. Meio entorpecido, virou-se para a frente e começou a aumentar a rotação dos motores.
Olhou para Mary de soslaio, como que a dizer, vai tudo correr bem.
Mary estava branca como cal. Não fazia a mais pequena ideia de como se devia comportar um co-piloto. Mantinha-se quieta conforme o plano combinado antes com Pedro.
Pedro agarra a manche e suavemente começa a levantá-la. O gigante de aço obedecia-lhe cegamente e também ele começou a levantar do solo suavemente.
“Quais são as coordenadas do destino, Sr.ª Ministra?” Perguntou Pedro pelo microfone do capacete.
“Vamos para estas coordenadas.” Disse Afrodite entregando-lhe um papel dobrado.
“Posso usar o telemóvel aqui dentro?” Perguntou Afrodite.
“Afirmativo.” Respondeu Pedro solicito.
Afrodite pegou no telemóvel e procurou um nome na lista dos nomes para os quais já havia ligado. Parou no nome PedroFerreira Petrov e pulsou a tecla verde para fazer a chamada.
(continua)


