Arquivo de Janeiro, 2008

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A Fuga – Parte 3

Janeiro 26, 2008

 O carro parou junto à vedação que delimitava o perímetro de segurança da base. Pedro tomou o cuidado de o esconder por detrás de umas silvas de forma a não poder ser visto da estrada que dava acesso à base, a mesma por onde, dali a instantes, haveria de passar a caravana que trazia Othelo.

O plano inicial delineado por DeCosta consistia numa abordagem directa à caravana. Seriam cortados pinheiros que se colocariam na estrada, formando uma barragem, e depois atacar-se-ia a caravana de surpresa.

No entanto Pedro pensou que tal plano, atendendo à desvantagem numérica que tinham em relação aos adversários e ao facto de possuir menor poder de fogo do que eles, era um plano suicida. Em alternativa pensou noutro, mais arrojado mas com mais probabilidades de sucesso.

Dirigiu-se à mala do carro e de lá tirou uma tesoura de cortar arame.

Mary que já havia pegado num serrote para dar seguimento ao plano inicial, viu com espanto o companheiro pegar naquela ferramenta.

“Pedro, vamos cortar arvores, madeira, paus… não vamos cortar ferro pá.”

“Tem calma, esse plano do DeCosta não me parece bom. Acho que não conseguimos ter sucesso com ele. Por isso engendrei outro. Anda, larga esse serrote e vem comigo.”

“Hummmm, tu agora já deste em discutir os planos? Que raio de novo plano é esse?”

“Anda cá.”

Pedro abeirou-se da vedação. Do outro lado via-se a pista de aterragem da base e os hangares com os aviões. No centro da pista estava um helicóptero parado, com os motores desligados. Era um EH101 – Merlin. Pedro conhecia bem aquela aeronave.

“Aquele é de certeza o helicóptero que vai transportar a cambada do Lourenço e o Othelo.” Disse Pedro apontando para a aeronave.

“Como podes ter tanta certeza?”

“Então… os outros aviões que eu vejo são todos caças. Não me parece que eles caibam todos dentro de um deles?”

“Sabes lá tu… aquilo pode ser como o concurso do mini. Vamos ver quantos cubanos cabem num F16? Ou coisa do género…” Disse Mary rindo.

“Tu e as tuas invenções, e depois o maluco sou eu? Bom vamos mas é tratar disto.”

Pedro pegou na tesoura e cortou a rede de modo a permitir a passagem para o interior da base.

“Hey… espera lá. Explica-me lá esse teu novo plano. Sempre quero saber como é que vou pôr o meu couro em risco.”

“Segue-me, conto-te enquanto andamos.”

A base aérea de Maceda, não era uma base fortemente vigiada. Actualmente tinha apenas funções de apoio ao corpo de tropas pára-quedistas sediado em S. Jacinto. De lá partia todas as semanas um C130 com pára-quedistas para largadas de treino sobre a praia de Mira. Fora isso, mantinha um F16 e dois outros caças Alfajet que faziam a patrulha da zona económica exclusiva da costa portuguesa, entre Viana do Castelo e Figueira da Foz.

Pedro e Mary chegaram a um edifício que parecia ser o principal do complexo. Entraram por uma porta que estava aberta e deram por si dentro do que lhes pareceu ser um balneário.

“Pedro, isto deve ser o ginásio…” Murnurou Mary.

“Schiuuuu, tá calada, não é nada disso, olha para estes uniformes.” Pedro apontava para dois uniformes de piloto que estavam pendurados num cabide.

“Esconde-te… vem aí gente.”

Ouviram-se passos na direcção deles. Esconderam-se por detrás de um armário.

“Para onde é que vamos voar agora?” Disse um dos homens pegando num dos fatos que estavam pendurados.

“Sei lá eu, a ministra é quem vai dizer.”

Pedro virou-se para Mary com o olhar de quem tinha acertado no jackot.

De repente ouve-se um barulho de um telemóvel a tocar.

Pedro arranca apressadamente o aparelho do bolso do casaco e desliga-o num ápice. No entanto não o suficientemente rápido para não ser ouvido.

“É o teu?” Disse um dos homens.

“Não, o meu não toca assim, além do mais está desligado, desligo-o sempre antes de voar.”

“Eh pá, meu também não é.”

Pedro levanta-se como se tivesse uma mola que o tivesse impulsionado, com a tesoura desfere dois golpes no ar, para um lado e para o outro. Ouvem-se dois corpos a cair no chão, inertes. Eram os pilotos.

Mary estava paralisada pela cena que se desenrolara perante os seus olhos.

“Vais ficar a olhar ou vais vestir esta farda e fazer o que combinamos?”

Mary quase num gesto mecânico vestiu o uniforme.

“Temos de esconder estes dois.” Disse Pedro.

“Mete-os dentro deste cacifo. Parece bem espaçoso.”

Pedro e Mary dirigiram-se para o helicóptero e assumiram as posições no seu interior. Pedro seria o piloto e Mary a co-piloto.

“Mas afinal quem era que te estava a ligar?”

“Sei lá, nem tive tempo para ver. Espera aí.” Pegou no aparelho e viu a chamada não atendida. Era a deusa. Há já tanto tempo que não se falavam, tinha logo de ligar naquela hora.

“Então quem era?”

“Ahhhh…Era o meu pai…”

A caravana para junto ao helicóptero. Da viatura da frente sai uma mulher que de imediato dá ordem para que o helicóptero seja ligado.

“Vamos lá a ligar isso, quero arrancar rápido.” Disse.

Os rotores começaram a deslizar lentamente adquirindo cada vez mais velocidade.

Pedro apercebeu-se que Othelo tinha entrado. Estava sentado nos últimos acentos com Lourenço ao seu lado. Á frente, junto a ele, estava aquela mulher maravilhosa. Ficou uns segundos a contempla-la.

“Então??? Vamos arrancar ou vamos ficar aqui a olhar para ontem.”

Pedro acordou daquele sonho. Meio entorpecido, virou-se para a frente e começou a aumentar a rotação dos motores.

Olhou para Mary de soslaio, como que a dizer, vai tudo correr bem.

Mary estava branca como cal. Não fazia a mais pequena ideia de como se devia comportar um co-piloto. Mantinha-se quieta conforme o plano combinado antes com Pedro.

Pedro agarra a manche e suavemente começa a levantá-la. O gigante de aço obedecia-lhe cegamente e também ele começou a levantar do solo suavemente.

“Quais são as coordenadas do destino, Sr.ª Ministra?” Perguntou Pedro pelo microfone do capacete.

“Vamos para estas coordenadas.” Disse Afrodite entregando-lhe um papel dobrado.

“Posso usar o telemóvel aqui dentro?” Perguntou Afrodite.

“Afirmativo.” Respondeu Pedro solicito.

Afrodite pegou no telemóvel e procurou um nome na lista dos nomes para os quais já havia ligado. Parou no nome PedroFerreira Petrov e pulsou a tecla verde para fazer a chamada.

(continua)

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A fuga – Parte II

Janeiro 19, 2008

 O carro galgava a estrada com uma velocidade vertiginosa.

As portagens dos Carvalhos tinham ficado para trás. Pedro olhava compenetrado a estrada. Ambas  as mãos no volante, o pescoço ligeiramente inclinado para a frente, o olhar fixo nos outros veículos que ultrapassava com voracidade. Parecia que comia os carros com os olhos.

Mary encostada ao banco, ambas as mãos bem agarradas aos estofos, a face lívida, parecia que estava a ver a vida a passar-lhe pela frente. A cada ultrapassagem cravava mais fundo as unhas nos estofos, como se o couro dos assentos fosse a única coisa que a podia acalmar e dar a segurança que a condução audaciosa de Pedro não lhe conseguia dar.

“Grrrr… Pedro, Mary… Aqui DeCosta, escuto.”

Mary até deu um salto no banco. Era como se alguém a tivesse acordado no meio de um pesadelo. Só que o pesadelo era real, aquela perseguição estava a dar-lhe cabo dos nervos.

Pegou no rádio para responder a DeCosta que aguardava do outro lado.

“D.. DeCosta… Que se passa? Quais são as informações que tens sobre a localização do Othelo?”

“Diz escuto…”

Disse Pedro sem tirar os olhos da estrada.

“Qu… Que dizes?”

“Tens de dizer escuto no final da mensagem, já te esqueces-te? Assim ele não sabe se já acabas-te de falar.”

“Oh pá, esta perseguição até me está a deixar meio abananada. Acho que quando sair do carro, se sair com vida, não é, o meu esqueleto vai ficar marcado no couro do banco.”

“Exagerada… Só vou a 230 Km/h. Isto ainda dá mais.”

“Mary… terminaste a ultima comunicação? Escuto…”

“Ahhhh… Desculpa DeCosta, mas eu tenho dificuldade em pensar… tenho os neurónios todos encostados à nuca, tamanha é a velocidade que este carro leva, escuto.”

“Ahhahahaha, afinal foi para isso que compramos o maquinão, não foi? Bom, mas de qualquer maneira vamos ao que interessa, escuto.”

“Sim… dá-nos as ultimas coordenadas do Othelo, escuto.”

“Tudo leva a crer que eles se dirigem para a base aérea de Maceda, perto de Ovar. Neste momento estão a cruzar a zona dos Carvalhos pela nacional 1, escuto”

“Isso quer dizer que já passamos por eles. Qual é o teu plano de acção DeCosta? Escuto”

“A minha ideia é vocês interceptá-los na estrada que faz a ligação da nacional à base. Essa estrada passa por uma zona de denso pinhal, o esconderijo perfeito para uma emboscada. Escuto.”

“Vamos a isso, faz o upload das coordenadas aqui para o GPS do carro, escuto.”

Segundos após o GPS dá sinal de recepção de novas coordenadas.

“Temos de sair na saída de St.ª M.ª da Feira. Já lá estamos a chegar.”

Disse Pedro, olhando de para as novas indicações que o GPS lhe apresentava em holograma no para-brisas.

Entretanto, a caravana em que seguia Othelo, a ministra, Lourenço e a sua brigada seguia pachorrentamente pela estrada nacional 1.

“Para onde vamos com o prisioneiro?”

Perguntou Lourenço.

“Para já só te digo que vamos apanhar o heli na base de Maceda.”

“Mas que bicho te mordeu? Perdes-te a confiança em mim?”

“Deves pensar que sou burra, não é?”

“Uhhh… Não sei a que te referes? Que queres dizer com isso?”

“Vá lá… não te faças de distraído. Queres ver como eu te avivo a memória num instante?”

“Não sei porquê mas não estou a gostar nada do rumo da conversa.”

“Qual é a tua relação com uma tal de Elora Lungu?”

Lourenço ficou branco como a cal.

“Elo… não sei de quem falas.”

“Ohhh… não te faças de sonso. Eu já sei tudo o que queria saber, só espero que tenhas a honestidade de admitir.”

“Mas como descobris-te?”

“Isso não vem ao caso. Gostas dela, não é?”

“Não é o que estás a pensar… aconteceu… eu para te ser franco até nem queria.”

“Para o carro… ” Berrou Afrodite ao condutor. O carro imobilizou-se de imediato levanto toda a caravana a travar bruscamente.

“Sai do carro. Sai, não quero compartilhar nem mais um átomo de oxigénio contigo. Crápula.”

Lourenço olhava para o chão do carro.

“Pensar que sem mim não passavas de um mero agente de segurança da PSP. Ingrato. Sai, já disse.”

Afrodite empurrou Lourenço contra a porta até que este a abriu e se levantou saindo do interior do carro.

“Afro… tens de me dar uma oportunidade de te explicar. As coisas não são bem assim. Nem tudo é preto e branco, existem outras nuances de cinzento.”

“Põe-te a milhas se não queres ficar com umas nuances de roxo nos olhos, ingrato.”

Afrodite fechou a porta do carro e deu instruções ao motorista para seguir viagem.

Lourenço entrou numa das carrinhas que seguia atrás na caravana. Os seus pensamentos eram um misto de alívio e tristeza. Não era assim que ele queria que Afrodite soubesse.

Vieram-lhe à cabeça os momentos que passara com Afrodite, mas no fundo a sua cabeça já só recorria à imagem de Elora…

Elora era uma bonita agente da policia secreta Israelita, a Mossad. Tinha vindo a Lisboa dar uma sessão de formação aos agentes da secreta da república, entre os quais estava Lourenço.

A primeira vez que cruzaram o olhar Lourenço teve a sensação de “dejavu” mais intensa que jamais tivera. Tinha a sensação que conhecia aquela mulher. Mas só podia ter acontecido em sonhos. Nem um nem outro se haviam cruzado antes.

A empatia entre ambos ficou logo patente na primeira troca de olhares. Daí ao convite para jantar foi um passo. Escolhera um restaurante da linha, com vista para a foz do Tejo. Conversaram, trocaram ideias, piadas, inconfidências como se já fossem velhos amigos que já não se viam à muito tempo.

Lourenço ofereceu-se para a levar ao hotel onde estava hospedada, mas ela recusou. Sentiu que tamanha empatia entre ambos acarretava um risco muito grande de acordar na manhã seguinte com aquele homem na cama.

Elora não queria isso, pelo menos não agora. Sentia uma atracção forte por Lourenço mas a sua cabeça repetia-lhe vezes sem conta…

“Toma cuidado…Olha que ele é bom demais para ser verdade…”

Como tinha por norma respeitar muito aquilo que a sua consciência lhe mandava fazer, optou por ir para o hotel de táxi.

Nos dias seguintes Lourenço andava nas nuvens. Só queria estar ao pé de Elora. Chegou a ameaçar um colega de curso que se tinha rejeitado a trocar de lugar com ele para assim ficar mais perto dela.

Cada frase dela, Lourenço absorvia como se de uma abelha e tratasse e as palavras de Elora o doce néctar que o alimentava.

No final do segundo dia de curso voltou a convida-la para jantar.

Elora recusou. Alegou que estava cansada por causa do “jet lag”.

Lourenço não desistiu. Todos os dias a convidava. Elora lá ia dando desculpas, umas mais esfarrapadas que outras, para não ter que se submeter à tentação que cada dia sentia que a estava a tomar de assalto.

Até que chegou o último dia do curso. Lourenço, já desanimado com tantas “tampas” que havia levado nos dias anteriores, a convidou sem convicção que ela fosse aceitar. Mas aceitou, rematando o assentimento com uma provocação.

“Esta noite quero que seja a noite das noites.”

Lourenço quase desmaiava de tanta alegria. Apetecia pregar-lhe com um beijo. Ainda esboçou o movimento, mas logo foi reprimido por Elora.

“Tem calma… Aqui não é o local.”

Nessa noite jantaram, mas Lourenço quase nem tocou na comida. Estava completamente extasiado com a ideia de nessa noite sentir o seu corpo com o corpo dela. Pele com pele, numa troca de calor que faria fundir o mais rijo dos metais.

Dirigiram-se ambos para casa de Lourenço, entraram e fecharam a porta atrás deles. Na sombra projectada no vitral da porta da entrada podia-se perceber que se beijavam.

Foi essa a visão que teve Afrodite.

Estava dentro do carro, estacionado do outro lado da rua.

A raiva tomou conta dela. Num primeiro impulso ainda abriu a porta do carro para sair e dirigir-se à casa de Lourenço e pôr um termo àquela pouca vergonha.

Mas conteve-se, pensou para ela que a vingança é um prato que se serve bem frio…

Voltou a entrar no carro e arrancou.

(continua)

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Breve enquadramento da história

Janeiro 11, 2008

 Nesta altura, considero importante proceder a um enquadramento da estrutura macroeconómica/social/policial/ qualquer outra coisa, que eu disto não percebo muito.

O primeiro ministro é de facto Frederico Mendes, filho de Marques Mendes com Manuela Moura Guedes. Chegou ao poder após o golpe de estado que derrubou o incompetente Menezes que em dois anos fechou, nada mais, nada menos, que seis estádios do Euro 2004, incluindo o da Luz, Alvalade XXI e o Bessa.

Sem hospitais, médicos ou reformas, o povo ainda aguentava, agora sem estádios… Nem pensar.

Por outro lado Meneses encontrava-se fortemente debilitado por um ataque de demagogia que o tinha deixado quase sem um único cabelo na cabeça, logo, sem condições para governar.

Afrodite Ewry era a ministra da informação do governo de Mendes. Sob a sua alçada tinha a policia politica que controlava o pais inteiro com mão de ferro. Diziam, as más línguas, que sem Afrodite, Freddyx, como também era conhecido não tinha sobrevivido dois dias no poder. Toda esta convulsão levou à criação de grupos paramilitares nas regiões autónomas, que conduziram à independência dos Açores, e a exigências por parte do governo da madeira com vista à autodeterminação do povo madeirense.

Os Açores, que se tinham tornado num emirado após a descoberta de importantes jazidas geotermais das quais extraía energia, que depois transaccionava para os países desenvolvidos, através do pagamento, por estes, de somas astronómicas. Após o fim do petróleo, as fontes de energia renováveis tornaram-se extremamente importantes, com especial relevo às oriundas das fontes geotermais, cujo rendimento era superior a qualquer outra forma de energia conhecida até então.

A Madeira continuava dependente do turismo. Alberto João ainda era presidente, tinha agora 150 anos de idade, e ainda frequentava o carnaval madeirense.

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A fuga

Janeiro 11, 2008

 ”Raios… As manas foram capturadas. Temos de mudar de poiso rápido.”

“Sr…uhhh…chefe…”

“Anda homem desembucha. Parece que ficas-te gago de repente.” Disse Lourenço impaciente com tanta hesitação.

“É esse gaijo hoje já levou duas lapadas no focinho por causa de umas escapadelas em frente ao prisioneiro.” Comentou Riederer levantando a mão como se fosse atingir o hesitante  colaborador.

“Ahh… errr… é a Ministra.”

“Sim, que tem a Ministra?” Interrogou Lourenço com redobrada impaciência.

“A Ministra chegou. Acaba de ent…”

Nem teve tempo de acabar o que ia dizer. Levou um encontrão que o projectou para a frente fazendo com que se estatelasse no chão com violência.

“Boa noite meus senhores.”

“B… boa noite.” Disse Lourenço surpreendido com a inesperada visita.

“A que se deve esta vista?”

“Não me parecem muito contentes por me ver?”

“Errrr… Não, não é isso. Só estamos admirados, é só. Em 10 anos de serviço nunca tinhas visitado uma brigada em pleno teatro de operações. Qual o motivo?”

Perguntou Lourenço, embora já adivinhasse a resposta. Os recentes desaires tinham chegado ao conhecimento das mais altas esferas do estado, quem sabe se até mesmo ao primeiro ministro.

“Não sabes o motivo? Não te parece obvio? Vocês em 10 anos de carreira, como muito bem frisas-te, nunca tinham tido um contragolpe desta natureza.”

“Mas Afrodite estava tudo muito bem planeado, tínhamos tudo sob controle…”

“Pois, a palavra chave é mesmo essa, “tínhamos”, porque já não têm, não é? Ah… e é Srª Ministra se faz o favor.”

A pergunta não obteve resposta por parte dos seus interlocutores. Afrodite olhava para eles como uma professora olha para os seus alunos que tinham acabado de partir o vidro da escola a jogar à bola. Todos, sem excepção estavam de olhos no chão ouvindo o que ela tinha para dizer, sabiam que tinham cometido erros, e se ela estava ali era porque algo de muito grave se iria passar. Afrodite prosseguiu.

“Sabem quem me acabou de ligar antes de entrar aqui? O nosso primeiro. Sim, esse mesmo, Frederico Mendes em pessoa. Adivinham para que foi que ele me ligou?”

Afrodite falava agora num tom grave, e elevado.

“Com certeza foi para  me desejar boa noite, pensarão vocês? Não, não foi. É que a vossa trapalhada já lhe chegou aos ouvidos. E eu vim aqui, com ordens expressas para acabar, de uma vez por todas, com esta pouca vergonha a que vocês chamam operação.”

“Mas estava tu…” Lourenço nem teve tempo de terminar a frase. Afrodite, com um movimento brusco, levou a mão dela à boca dele, calando-o.

“Schiuuuuu… O meu menino agora já não vai dizer mais nada, entendido? Você vai executar aquilo que eu tenho para lhe dizer.”

Afrodite virou-se para os dois operacionais que a acompanhavam e deu ordem para que fossem buscar o prisioneiro.

“Preparem as viaturas. Vamos sair daqui rápido.”

Os dois operacionais meteram Othelo na carrinha e entraram todos nos carros, com a excepção de Lourenço e Afrodite. Ambos permaneciam frente a frente, como que em desafio mutuo. Aquela desautorização tinha ferido o orgulho de Lourenço. Ela podia ter dito tudo aquilo, afinal tinha toda a razão, mas não em frente a todos e, principalmente, não daquela maneira, pensava Lourenço.

“Que fazes aí a olhar para mim? Anda, entra no meu carro, temos muito que conversar no caminho.”

Entraram ambos e a frota seguiu a toda a velocidade em direcção ao Castelo do Queijo e depois pela Avenida Montevideu, seguindo pela zona da foz.

“Para onde vamos?” Perguntou Lourenço enquanto olhava pela janela para o exterior observando as ruas e os automóveis que passavam.

“Olha para mim.” Disse Afrodite num tom mais calmo.

“Tive de falar contigo daquela maneira por duas razões. A primeira é que realmente estou muito decepcionada com a actuação da tua brigada. Parece trabalho de amadores.

A segunda tem a ver com o facto de, não obstante termos a relação que temos, isso é do domínio privado, não se deve misturar com o trabalho. E isso, tinha de ficar bem claro.”

“Oh, sim, sim… Lá claro ficou.” Comentou Lourenço friamente, continuando a observar o exterior.

“Lourenço, não fazes ideia do que tive de ouvir do nosso primeiro por causa desta trapalhada. Se não fosse por mim já estaria despedido a tua brigada substituída pela do Fokas, entendes? Eles queriam a tua cabeça numa bandeja. Percebes?”

“Mas que diabo é que esses desgraçados dos ilhéus sabem de tão importante?”

“Isso não te posso revelar, mas a tua missão era bem clara, não era?”

“Sim, isso nunca foi o problema, mas por causa da troca tivemos de alterar o modo de operar.”

“Graças a essa troca perdemos já duas operacionais, temos a missão comprometida e temos mais uma agente que está exposta.” Disse Afrodite, enquanto se auxiliava dos dedos da mão para fazer a contagem.

“Isso só vai acontecer se o Othelo sobreviver.”

“Não vais fazer nada ao Othelo, ok? As minha ideia é outra.”

“E pode-se saber qual é?”

“Tenho um helicóptero à nossa espera na base aérea de Maceda. A minha ideia é atrair o Pedro e a Mary para um local onde tenhamos a vantagem do elemento surpresa. Onde estavam não oferecia condições nesse sentido.”

A caravana cruzou a ponte da Arrábida em direcção a Lisboa acabando por sair da auto-estrada nos Carvalhos. O percurso até Maceda ia ser feito pela estrada nacional 1.

Entretanto, no quartel general da SIM DeCosta tinha acabado de delinear o plano de intervenção para libertar Othelo das garras da brigada do Lourenço, quando foi interrompido por Fidalgo.

“Costa, tens de ver isto, vem cá.”

“Que se passa? Qual é a crise?”

“O Othelo está em movimento. Pelos dados do localizador está a mover-se para Sul.

“Bolas, tenho de avisar a Mary e o Pedro, rápido.”

Pegou no rádio telefone e chamou.

“Mary, Pedro, aqui DeCosta, escuto.”

Do outro lado respondeu-lhe Mary.

“Sim, Decosta, escuto”

“Alteração de planos. Othelo em movimento para Sul, escuto.”

 ”Para Sul? Porra, logo agora que estávamos tão perto.” Disse Pedro frustrado com a alteração dos planos.

“Mas vamos para Sul, para onde?” Indagou Pedro.

“Solicito coordenadas, escuto.” Disse Mary de imediato pelo rádio.

“Coordenadas serão dadas quando conhecidas com certeza, escuto. Por agora rumem pela nacional 1 para Sul, escuto.”

“Afirmativo, escuto.”

Pedro, com um movimento brusco no volante e com o auxilio do travão-de-mão, fez um peão com o carro ficando voltado em sentido contrário ao que então circulava. Carregou a fundo no acelerador e puseram-se ao caminho.

(continua)

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Revelação

Janeiro 7, 2008

Ao sinal dos faróis o portão do armazém abriu-se e o carro entrou fechando-se o portão atrás dele.

Lourenço saiu do carro e com ele os dois agentes com Teresa pelos braços.

Ela ia arrastada, como se estivesse inanimada. Cabeça baixa, olhos a fitarem o chão, como se estivesse resignada com a sua sorte.

Othelo ouviu a porta a abrir-se. Olhou na sua direcção e nem queria acreditar no que via.

Teresa foi atirada para o chão como se de um saco de batatas se trata-se.

“Teresa… Que fazes aqui?”

 “Uiiii, brutos… Othelo???”

“Caramba… Esta gente não brinca em serviço.”

“Que estás para aí a dizer. Que se passa contigo e com o Pedro? Como é que dois vendedores de jantes se envolvem com estes brutamontes?”

“Teresa, é uma longa história…”

“Pois trata de começar, porque tempo parece que não vou ter muito.”

“Então? Porque dizes isso?”

“Olha… Eu não sei o que o Pedro fez ou deixou de fazer a estes tipos, mas eles vão matar-me…”

As palavras de Teresa ecoaram na cabeça de Othelo como se estivesse dentro do mais profundo desfiladeiro.

“Matar-te!!! Cobardes.”

“Conta-me o que se passa. Othelo, tenho de saber…”

“Não… Não te posso dizer mais nada.”

Teresa fitava Othelo nos olhos incrédula.

“Não me vais dizer? Eu sou tua amiga Othelo. Fui durante muito tempo tua confidente. Quando arranjas-te aquela americanita, a Juana, fui eu quem te pagou os bilhetes para ires a S. Francisco. Como podes ser tão ingrato.”

“Não ponhas as coisas nesses termos. Isto é maior do que tudo aquilo que possas imaginar. Qualquer coisa que te diga pode comprometer a vida de todos nós.”

“Grande alhada andais metidos… Sim senhor. Olha, nunca pensei que vender jantes pudesse ser um negócio tão arriscado. Diz-me lá quem são eles, só isso. Não te compromete em nada, pois não? Eles são representantes dos assentadores de guias de passeio, são?”

Othelo soltou uma gargalhada, mas depressa levou as mãos à boca para silenciar o riso.

“Associa… Vendedores de guias de passeio… Como raio foste pensar num disparate desses?”

“Então… Os passeios são os maiores inimigos das jantes e vice-versa, não é?”

“Olha… Só te posso dizer isto. Eu e o Pedro não somos realmente quem parecemos ser.”

“Olha muito obrigado. Deves pensar que sou burra, não? Isso já eu percebi, espertinho.”

“Bom, então ficamos por aqui, ok?”

“Othelo…”

“Schiuuuu, está calada, não te digo mais nada.”

“Mau, não sejas bruto. Não era sobre isso que te queria falar agora.”

“Então?”

“Sabes uma coisa?”

“Não, diz.”

“Eu tenho de te confessar uma coisita, agora que vou esticar o pernil.”

“Que queres dizer com isso, tem calma. Vais ver que ainda nos vamos safar. Tens de ter fé.”

“Bom, mas de qualquer maneira acho que te vou dizer de qualquer forma. Nunca se sabe como isto vai acabar.”

Teresa aproximou-se de Othelo ficando ambos em frente um ao outro.

“Othelo… Sabes qual foi o memento mais triste da minha vida?”

“Não.”

“Quando foste para os Estados Unidos, atrás daquela… Juana”

“Teresa, porquê isso agora?”

“Está calado. Deixa-me deitar isto cá para fora.”

“Ok, ok… Não te zangues.”

“Bom, de facto quem te pagou a viagem aos estates fui eu, mas não o fiz porque te quisesse juntar com a Juana. Fi-lo por outra razão.”

“Que razão foi essa então?”

“Fi-lo por saber que era isso que te iria fazer feliz. Foi essa a razão.”

“Não sei se estou a entender o que me estás a tentar dizer.”  

“Não entendes se não quiseres… A verdade é que… errrrr….”

“Anda, diz lá o que tens a dizer.”

“Bom… A verdade é que te amo. Amo-te, prontos, já disse.”

Othelo ficou estático. Era como se lhe tivesse passado pela frente uma escola de samba com as bailarinas todas nuas. A boca aberta e os olhos esbugalhados.

“Errrr… Como é?”

“ Amo-te tonto, sempre te amei, desde o dia em que apareces-te lá em casa.”

“Não fazia ideia. Apanhaste-me de surpresa.”

“Ehehehehehe, nota-se.” Disse Teresa aproximando-se mais de Othelo. Os lábios quase a tocar-se, murmurou…

“Agora que vou bater as botas, quero aproveitar todo este tempo perdido.”

“Tas malu…” Othelo nem teve tempo de acabar a frase. Teresa beijou-o com o ímpeto dos condenados, como se não houvesse amanhã. Provavelmente não haveria…

Othelo afastou delicadamente Teresa quebrando aquele beijo intenso.

“Espera, espera.” Disse sofregamente enquanto recuperava o ar.

“Não, não posso esperar. Quem sabe se daqui a instantes me vêm buscar para me cortar o pescoço.” Teresa agarrava Othelo pela camisa tentando abri-la à força.

“Não sejas maluca, pára com isso. Nos não podemos ter nada um com o outro. O Pedro é o meu melhor amigo, quase como um irmão. Além do mais Teresa, eu não te amo.”

Teresa parou, agarrada a Othelo como se tivesse sido petrificada naquele instante.

“Como podes dizer isso. Nem sequer deste tempo para assimilar a ideia. Eu entendo que estejas chocado, mas ao menos dá-me uma oportunidade. Ainda por cima pode ser a primeira e a ultima. Que tens a perder? O Pedro nunca vai saber.”

“Tu estás louca. Isto não funciona assim. Teresa, tu és uma mulher bonita, sensual… Mas não serás a minha mulher… Eu não te amo, nunca amei.”

Teresa afastou-se como que repelida pela força da revelação.

“O que foi que o Pedro foi fazer a Lisboa?” Disse ela num tom bastante mais sério.

“Não sei. Caramba, que mudança de humor tão brusca!!!”

“O que é que vocês os dois têm a ver com a SIM?”

“Espera lá… Que raio de pergunta é essa? Onde foste buscar esse nome?”

Othelo levantou-se e aproximou-se de Teresa.

“Queres ver que temos aqui uma surpresa? Desde quando trabalhas para o Lourenço e a sua corja de cubanos?”

“Hahahahaahaha… Enganei-vos bem, não foi? Trabalho na brigada do Lourenço desde a sua formação. Sou a agente infiltrada n.º 1369. O meu objectivo era de sacar o maior número de informações do Pedro.”

Othelo espumava de raiva. Como podiam ter sido enganados durante todo este tempo por esta messalina? Agarrou Teresa pelos colarinhos e apertou-a contra a parede com força.

“Tenho vontade de te esmagar como um insecto. És bem merecedora de estar junto com a corja do Lourenço. Não passa de uma barata insignificante.”

A porta  abriu-se de repente e de lá surgiram três vultos. Othelo sentiu um calor na nuca e caiu inanimado.

“Mataste-o estúpido…”

“Nahhh, ainda respira.”

“Não lhe façam mais mal. Quero-o para mim quando isto acabar.” Disse Teresa aos seus companheiros de salvamento.

Entretanto, no “Calor da Noite” DeCosta e Fidalgo preparam-se para interrogar as manas das estações, nome pelo qual ficaram conhecidas as manas Winter e Summer.

DeCosta pediu a Fidalgo que lhe trouxessem a mana mais fria, Winter, para a sala de interrogatórios.

“Ora viva… Quem temos nós por aqui? Veio-nos fazer uma visitinha?”

“Não sejas lorpa… Se não estivesse com as mãos atadas perdias esse risinho antes de tocar no chão.”

“Ui, ui, que violência. Estou a tremer de medo. Onde está o Othelo? Só quero que me digas o armazém, pois o local já sabemos.”

“Eu a ti não te vou dizer nada, porco separatista.”

“Eu se fosse a ti pensava melhor. Sabes que podem acontecer coisas bastante desagradáveis à tua maninha se não colaborares.”

“Nem te atrevas a tocar-lhe.”

“Eu?? Tocar-lhe? Não… Mas tenho na sala do lado dois árbitros e três dirigentes de um clube de futebol que estão ansiosos por ter uma boa diversão.”

“Não, isso não. Não farias tão desumana tortura à minha mana?”

“Se não colaborares é o que vai acontecer. Observa este monitor aqui para veres como eu falo verdade.”

DeCosta aproximou um pequeno monitor de vídeo de Winter. Nele podiam-se ver distintamente cinco homens a observar fotos nuas de Summer enquanto fumavam sofregamente charutos.

“Vocês são mesmo do mais reles que pode haver. Eu falo, com a condição de me trazerem a minha maninha para aqui agora.”

DeCosta fez um gesto com a mão, como que a chamar alguém. A porta da sala abre-se e aparece Fidalgo com a mana Summer algemada.

“Pronto, cumpri com a minha palavra. Agora faz a tua parte.”

“O Lourenço disse-nos para levar a Mary e o Pedro para um armazém na Docapesca, em Leixões.”

“Isso nós já sabemos. O que quero saber é qual o armazém?”

“É o armazém 25.”

 

(continua)

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Contra-ataque

Janeiro 4, 2008

Pedro e Mary aproximaram-se da carrinha que Lourenço tinha enviado para os levar.

Os ocupantes da carrinha vendo-os chegar abriram as portas para sair e receberem os futuros reclusos, mas nem tiveram tempo de o fazer.

Pedro e Mary, vendo que as portas se estavam a abrir, aceleraram o passo, e num movimento rápido escancararam as portas do carro e apontaram as armas à cabeça dos dois ocupantes.

Surpreendidos pela rapidez da acção nem tiveram tempo de reagir, levantando as mãos em sinal de submissão aos seus interceptores.

Pedro puxa um dos ocupantes para fora da carrinha com uma mão, mantendo a arma firme e apontada à cabeça na outra mão.

“Olha, olha… Quem temos nós aqui? Então, além de servires no Caneco também fazes biscates como raptora para o Lourenço?”

“Mary, nem fazes ideia de quem tenho entre mãos?”

“Então… Não me digas que já a conhecias?”

“Uiiii, esta flausina anda disfarçada de empregada de mesa e estava precisamente no pub  onde eu e o Othelo estávamos aquando do desaparecimento dele. Chama-se Winter e tinha uma mana que se chamava Summer, até fiz uma piada com o nome delas na altura. Grandessíssimas …. Ora tira lá esse dai… Ás tantas é ela, a Summer.”

Mary puxou o outro ocupante para fora do carro atirando-o com violência contra a porta traseira.

“Eh pá, Pedro, é uma gaja, deve ser ela, anda cá ver.”

Pedro agarrou em Winter e com brusquidão arrastou-a em torno do carro até poder ver a outra ocupante que Mary tinha sob custódia.

“É ela é. Que iam fazer connosco? Vá, respondam.”

“Não te digo nada, porco” Disse Winter tentando cuspir em Pedro.

“Uiii, calminha aí, minha linda. Afinal quem é o porco? Querias cuspir em mim?”

Mary fez sinal à carrinha onde estavam os outros dois operacionais para que se aproximasse. O veículo fez um arranque brusco e rapidamente colocou-se junto ao local onde eles estavam.

“Vamos levar estas duas flausinas para a sede. Lá vocês vão cantar que nem rouxinóis.” Disse Pedro enquanto pegava em Winter torcendo o braço com força.

A porta lateral da carrinha abriu-se e ambas foram atiradas para dentro. Fecharam a porta e a viatura arrancou a alta velocidade em direcção à Avenida da Boavista.

“Pedro…” Chamou Mary de dentro da carrinha das manas.

“Anda aqui, acho que encontrei alguma coisa que nos pode ajudar a descobrir o paradeiro do Othelo.”

Pedro aproximou-se e reparou que Mary segurava um mapa da área metropolitana do Porto na mão. Nesse mapa encontravam-se assinalados diversos locais a vermelho. Um desses locais era um armazém na zona da docapesca em Leixões. Seria esse, com toda a certeza o local onde estava o Othelo.

De repente ouvem um telemóvel a tocar. Pedro abre o porta-luvas do carro e lá estava o telemóvel a tocar. Era uma chamada de alguém a quem as manas tinham dado o nome de “Don Juan”. Seria Lourenço, pensou Pedro. Queria certificar-se que Pedro e Mary estavam sob a alçada delas conforme planeado.

Pedro atendeu o telefone.

“Aposto que não estavas à espera de me ouvir, palhaço?”

Lourenço ficou uns instantes sem falar, surpreendido em ouvir Pedro. Era sinal que as coisas não lhe estavam a correr conforme planeado. Recompôs-se, com a sua pose altiva e a voz colocada, para não revelar ao seu interlocutor a mínima impressão de desorientação.

“Pedro, Pedro… Afinal és mais burro do que eu pensava. Essa tua acção não vai ficar sem a devida reacção. Sabes… Podes não acreditar, mas… Sou um homem de palavra. Vou cumprir com o que te prometi. Podes dizer adeus à tua mulherzita.”

Lourenço desligou o telefone. Estava possesso. Apertou com tamanha força o telemóvel na mão que o acabou por partir. Tinha perdido a jogada, mas acreditava que ainda não havia perdido o jogo. Afinal ainda tinha Othelo.

“Metam-na no carro com descrição. Não quero despertar a atenção da vizinhança.”

Entraram todos no carro e arrancaram a alta velocidade.

Pedro afastou-se por momentos de Mary. Encostou-se ao muro do cemitério e deixou-se escorregar até ficar acocorado. Chorava… Mary sentia-se impotente perante o sofrimento do seu companheiro. Faltavam-lhe as palavras. Baixou-se e abraçou-o, tentando consola-lo.

“Pedro, temos de continuar. Tens de ter força, o Othelo precisa de nós.” Murmurou Mary ao seu ouvido.

(continua)