Arquivo de Fevereiro, 2008

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O Resgate – Parte II

Fevereiro 23, 2008

 A noite caíra fria e escura, os três fugitivos caminhavam agora pela berma da estrada. No ar ouviam-se os motores dos helicópteros a cruzarem os céus, ora mais próximos ora mais distantes, iam e vinham numa cadência ritmada.

Ao longe avistam as luzes de uma pequena povoação. Aceleram o passo.

O ruído das hélices dos helicópteros pareciam agora mais fortes. Perceberam que atrás deles uma luz percorria a estrada à sua procura.

“Rápido para as árvores.” Gritou Othelo …

O helicóptero passou por eles inspeccionando a estrada e as bermas com um vagar enervante. Parecia esperar que a qualquer momento, do meio daquele arvoredo, saltassem os três fugitivos como javalis acossados pela matilha.

O aparelho afastou-se e os três amigos puderam retomar o caminho, mas agora caminhavam somente pela berma.

A placa indicava que acabavam de entrar na aldeia de Vale Salgueiro. Era uma pequena terriola, não mais que três dezenas de casas. Aquela hora não se via vivalma na rua. Caminhavam encostados às casas evitando assim expor-se demasiado.

Ouviram um ruído de pratos e pessoas a conversar.

“Ali é o café cá do sitio, vou aproveitar e telefonar ao DeCosta.” Disse Pedro.

Mal Pedro cruzou as tiras mata-moscas de plástico da porta do café fez-se um silêncio sepulcral.

Todos os olhos estavam fixados agora naquele homem que acabava de entrar. Pedro não estava andrajoso, mas estava completamente ensopado, o cabelo molhado, a cara suja com resíduos de lama. Era uma visão quase fantasmagórica.

“Ehh migo, de onde foi você desenterrado?” Perguntou um homem gordo que estava sentado ao balcão.

“Preciso fazer um telefonema, posso usar o telefone?” Perguntou com a voz tremula do frio que lhe começava a invadir o corpo.

“Que é que lhe aconteceu?” Volta a indagar o homem gordo.

“Foi um acidente no rio. Por isso preciso de telefonar com urgência.”

“Ahhhhh, por isso andam estes passarocos pelo ar que na deixam descansar a gente. É que é cá uma barulheira que um home nem pode dormir, porra.”

“Tome, ligue, ligue home, que esta gente anda feita doida à sua procura.” Disse-lhe o dono do café estendendo-lhe o telefone na sua direcção.

“Obrigado…”

Pedro discou o numero, do outro lado uma voz quase mecânica atendeu-o.

“Com que é que vamos derrubar a republica?” Perguntou a voz do outro lado da linha.

“Com bananas.” Respondeu Pedro.

O silêncio dentro do café fez com que a resposta de Pedro fosse perfeitamente audível por todos. Ao ouvi-la olharam uns para os outros sem perceberem bem o que se estava a passar.

“Daqui é Pedro, quero falar com o DeCosta, urgente…”

” Pedrooo, meu grandessíssimo incompetente… Agora que estás enrascado já queres ouvir o que o palerma aqui tem para te dizer, não é?”

“Costa… agora não é o tempo nem o local para essas coisas.” Atalhou Pedro com rispidez.

“Necessito de um ponto de extracção com urgência.”

“Ok, Ok, … vejo que estás na aldeia de Vale Salgueiro… Tens de te dirigir a Abrantes. Lá estará alguém à tua espera.”

“Mas, mas… como sabes que estamos aqui???”

“Já não te lembras? O localizador do Othelo pá… Uiiii, e diz esta gente que é espião!!! Tsst, Tsst.”

“Eh pá, já nem me lembrava. Bom vou-me dirigir para o local, mas em que zona concreta estarão à minha espera?”

“Junto à ponte, dentro de 4 horas. Ahhh … Pedro …Boa Sorte.”

Pedro pousou o telefone. Reparou que à sua volta todos continuavam em silêncio.

“Quanto lhe devo?” Perguntou, dirigindo-se ao dono do estabelecimento.

“Ora essa, não me deve nada, afinal é para uma emergência. Mas diga… vêm-no cá buscar é?”

“Boa noite…” Pedro virou costas e dirigiu-se à porta ignorando a pergunta que havia ficado no ar.

Quando abandona o café ouve-se o burburinho dos seus ocupantes a comentarem em surdina o acontecimento.

Pedro caminhou em direcção ao fim da aldeia onde o esperavam os restantes companheiros de fuga.

“Temos quatro horas para chegar-mos a Abrantes.” Disse enquanto passava pelos companheiros sem parar para ouvir as respostas deles.

“Quatro horas??? Mas daqui a Abrantes são quase 20 km!!!” Exclamou Mary.

“Mais uma razão para não ficarem parados aí a conversar e porem pés ao caminho” Disse Pedro afastando-se do grupo, estrada fora.

Chegaram a Abrantes em três horas e meia. Mary vinha carregada nos ombros de Pedro, exausta e sem forças para caminhar.

Chegaram à ponte sobre o Tejo e debruçaram-se a observar o rio lá em baixo, o espelho de água provocado pelo açude que havia sido construído com as luzes da cidade reflectidas no rio.

“Pedro…que diabo descobriste tu nesta tua última viagem que provocou esta reacção toda?” Perguntou Mary.

“Em seu tempo saberás. Tu e toda a gente.”

Amanhecia, a hora marcada para o rendez-vouz esperado chegava. Junto a eles para um carro pequeno. O vidro baixa-se e de dentro uma voz lançou a pergunta.

“Com que é que vamos derrubar a republica?” Perguntou a voz de dentro do carro.

“Com bananas.” Respondeu Pedro.

“Um Smart???? Vamos ser evacuados num Smart???” Disse Mary incrédula.

Othelo e Pedro riam-se como maluquinhos, encostados ao carro.

“Não sei onde está a graça??? Como podem caber 4 pessoas nesta cabeça de mosca? Expliquem-me como? O DeCosta vai-me ouvir, Oh se vai…”

“Não há crise, queres ver… Abres a capota e eu e o Pedro vamos na parte de trás. Tu vais sentadinha no banco da frente como uma fidalga.” Disse Othelo enquanto abria a capota do carro.

Os três amigos acomodam-se dentro do minúsculo carro e este segue em direcção a Constância.

Entretanto junto às margens da albufeira um grupo de soldados encontra o corpo de uma mulher.

Aproximam-se e verificam que ainda respirava. De imediato procedem à sua evacuação para terrenos mais acima, na margem. O oficial do grupo aproxima-se da mulher reconhecendo-a de imediato, era a ministra Afrodite.

(continua)

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O Resgate

Fevereiro 16, 2008

 Lisboa, 19:45, base aérea de Figo Maduro.

O Audi A6 pára em frente ao helicóptero. De dentro sai um homem vestido de negro com óculos escuros.

Dirige-se aos militares que o aguardavam à porta da aeronave saudando-os com uma continência.

“Bom dia meu comandante.” Saudou-o um dos militares

“Os outros dois agrupamentos já estão dentro dos respectivos helicópteros prontos para seguir à sua ordem.” Prosseguiu o militar.

“Muito bem… Vamos.”

O homem de negro entra na aeronave sendo seguido de imediato pelos soldados que o tinham recebido.

A porta fecha-se e o aparelho levanta voo, seguido de imediato de outros dois helicópteros.

O homem de negro era nem mais nem menos que o comandante Francisco, mais conhecido pela sua alcunha de Comandante After Lab.

Francisco era o director da policia secreta militar, havia sido chamado de urgência à presença do Primeiro Ministro Mendes em pessoa.

As ordens que Mendes lhe transmitira eram claras. Acabar com o carnaval em que se tinha transformado a operação de extermínio da célula da SIM.

Mendes havia-lhe transmitido que um heli se havia despenhado na albufeira de Castelo de Bode. A bordo encontrava-se a ministra do interior, uma brigada da secreta e um prisioneiro. Desconheciam-se as causas que levaram à queda do aparelho.

“Atendendo ao delicado da situação, Francisco, não posso deixar este assunto entregue aos militares de Tancos. Tens de fazer uma operação de limpeza completa do local do acidente.” Disse Mendes a Francisco.

Francisco, militar de carreira, havia servido nos comandos, tendo ficado célebre a sua missão de destruição de importantes instalações militares dos rebeldes guineenses na vizinha Guiné Conacry, durante a guerra colonial.

Finda a guerra, é convidado pela KGB para ingressar nos seus quadros como espião para a Europa ocidental. Viria a receber treino especializado mas acabaria por fugir da então URSS, por divergências em relação ao regime comunista.

Refugia-se em Portugal em local secreto. Com a queda do muro de Berlim, Francisco vê sair-lhe de cima dos ombros um peso enorme. Podia agora circular livremente sem temer ser liquidado pela KGB.

É convidado pelo então primeiro ministro para reformular a desacreditada secreta portuguesa. Tarefa que Francisco executa com elevada eficiência, colocando a secreta portuguesa ao nível das sua melhores congéneres, Mossad, CIA, etc…

Era pois a este homem com uma vontade de ferro e uma sabedoria em tácticas de contra-espionagem acima da média, que Mendes havia pedido para acabar com a operação iniciada por Lourenço.

Entretanto, na ilha, no meio da albufeira de Castelo de Bode, Pedro e os restantes sobreviventes tentam arranjar maneira de saírem daquele local o mais rápido possível.

As equipas de salvamento ainda não haviam chegado, mas nas margens viam-se movimentações de soldados, certamente não passaria muito tempo até que eles fossem encontrados. Havia que fazer qualquer coisa e rápido.

A noite começava a cair, a oportunidade de escaparem sem serem descobertos estava a aproximar-se. Esconderam-se no interior da ilha, entre os arbustos e o arvoredo, aguardando pelo momento certo.

No entanto faltava um pequeno pormenor. Como iam eles sair dali? As margens ainda ficavam distantes da ilha. Distantes de mais para quem tinha acabado de lutar pela vida.

Estava Pedro perdido nestes pensamentos quando Othelo se aproxima com um sorriso de orelha a orelha.

“Já sei como vamos sair daqui.” Disse com visível satizfação.

“Então… que descobriste tu? Algum barco de pescador que tenha vindo para a ilha pescar?”

“Nem mais… Está ali à nossa espera, do outro lado da ilha. Venham…”

“Mas e o pescador? Já tratas-te dele?” Indagou Mary.

“Não se preocupem, esse já serve de comer aos peixinhos. Hoje é dia da caça…”

“Othelo!!!” Exclama Mary indignada.

“Sim, que querias? Deixar testemunhas para contar aos do governo que afinal havia sobreviventes e que entre eles estava a ministra e uns fulanos com sotaque madeirense? Era isso que querias?”

“Não, huh… Não era isso, mas também matar. Podias só o pôr a dormir, não é?”

“Deixa-te de mariquices e entra no barco.”

Já era noite cerrada quando começaram a viagem. Era noite de lua nova, a escuridão era total. Ao longe apenas se viam pequenos focos de luz, ora em movimento, ora parados, certamente seriam as tropas a efectuarem buscas nas margens.

Estavam quase a atingir a margem quando ouvem o ruído de helicópteros a aproximar-se. De repente são surpreendidos pelos focos de luz que perscrutavam as águas como naves alienígenas, à procura de sinais de vida.

Remam agora com mais rapidez e em força. A margem já está quase ao seu alcance.

São atingidos por um dos focos de luz. Foram descobertos. De repente outro e mais outro foco de luz incidem sobre a pequena embarcação. O ruído das pás dos aparelhos é ensurdecedor,

Remam agora como se não existisse amanhã, os remos parecem ter um movimento rotativo contínuo, como hélices, tal é o frenesim com que são manipulados.

Crack, crack, crack, crack…

As balas passam rente às suas cabeças zumbindo umas atrás das outras.

Lançam-se à água, é a sua única salvação. Debaixo de água continuam a sentir os disparos vindos de cima. As balas penetram na água logo perdendo a força. Vão nadando debaixo da superfície afastando-se das luzes e das balas.

Chegam finalmente a terra. Esgotados ainda conseguem um ultimo fôlego para correr para o abrigo das árvores. Pedro, Mary e Othelo…

“A ministra? Perdi a Afrodite…” Grita Pedro.

“Anda, deixa-a para lá, não podemos perder mais tempo, eles estão mesmo em cima de nós.”

(continua)

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Crash

Fevereiro 9, 2008

 A aeronave caía num movimento circular, rodando sobre o eixo do rotor principal.

Pedro apenas conseguia manter, a custo, o helicóptero em auto rotação, era a única hipótese que tinha de evitar um despenhamento violento no solo. Ainda assim, a velocidade de descida era grande e de certeza que a colisão com o solo is provocar estragos.

Dentro da aeronave os ocupantes lutavam por se manterem nos seus lugares. Á excepção de Mary, todos permaneciam sentados nos bancos presos pelos cintos de segurança.

Mary havia sido projectada para cima de Afrodite e ambas pareciam abraçar-se num movimento que ambas não conseguiam controlar, tal era a força centrifuga provocada pela rotação da aeronave.

Pedro olha para o altímetro acompanhando o rodopiar vertiginoso do ponteiro e dos números a caminho do zero.

A luz avisadora de proximidade do solo acendeu-se e com ela um aviso sonoro fez-se sentir no cockpit. Pedro volta a cabeça para trás, mantendo ambas as mãos firmes na manche e alerta os passageiros da eminência da colisão.

“Preparem-se… Vai ser forte…”

Pedro olha para fora tentando vislumbrar o local da colisão com o solo. Conseguira controlar o velocidade de descida mas nada podia fazer em relação à trajectória do aparelho. Repara que lá em baixo se estende um manto azul bordejado por arvores, era um rio, iam cair na água, o pesadelo ia continuar.

“Vamos cair na água, tentem colocar os coletes que estão de baixo dos assentos.” Gritou Pedro para o interior da aeronave.

Os ocupantes tentaram a custo fazer o que Pedro lhes pedia, mas era tarde demais…

SPLASHHHHHHHHHHHHHHH.

O choque foi tremendo. Parecia que o helicóptero tinha batido contra uma parede de betão, só que esta “parede” após o impacto começa a tomar conta do interior do aparelho. Das janelas, cujos vidros haviam sido estilhaçados com o impacto, começa a jorrar água em quantidades cada vez maiores. Pedro consegue-se libertar do cinto e dirige-se para a parte de trás da cabine tentando salvar alguém. Reparou que Mary já não estava dentro do helicóptero, teria escapado, teria sido projectada pelo impacto, não sabia, nem tinha muito tempo para se preocupar com isso. Repara em Afrodite, inanimada, sentada no banco ainda com o cinto posto. Pedro apanha um colete que se encontrava a boiar junto dela. Coloca o colete nela e acciona o sistema automático de insuflação do colete. Soltando-a do banco, encaminha-a para fora do aparelho através de uma janela partida e observa por instantes enquanto a vê afastar-se boiando de cabeça para cima.

Volta-se para o interior da cabine e vê Othelo caminhando em direcção a ele devagar.

“Anda dai pá… Esta cena vai ao fundo não tarda nada.” Disse Pedro tentando chegar ao companheiro.

“Acho que não vamos escapar desta amigo.”

“Que dizes… Anda daí, apressa-te, tanta cerimónia pá.”

Othelo aproxima-se de Pedro, mas não vem só.

“Teresa???? “

Teresa tinha a arma na cabeça de Othelo agarrando-o por um braço enquanto que o outro estava algemado a Othelo.

“Daqui não sai ninguém. Vamos todos para o fundo.”

“Estás doida. Larga essa arma e sai daqui, ainda nos podemos salvar todos.”

Crack, crack…

Ouviram-se dois tiros, Teresa deixa cair a arma caindo de seguida de bruços na água arrastando com ela Othelo.

Othelo lutava agora por se manter à superfície, arrastado para o fundo pelo peso do corpo inanimado de Teresa. Pedro tenta a todo o custo soltar o amigo, mas não tinha a chave das algemas nem qualquer ferramenta da qual se pudesse socorrer.

“Afasta-te…” Gritou uma voz por trás de Pedro.

“Mary!!! Bons olhos te vejam.” Gritou Pedro com satisfação.

“Não fiques todo entusiasmado, para mim ainda és um traidor ouviste?”

“Bamlughgghghg, despachem-se eu não tenho muito temgfhhghggg.” Othelo tentava lutar contra a força que o arrastava para baixo, mas já tinha a água pela boca.

“Afasta-te…” gritou novamente Mary.

Mary pega no braço inanimado de Teresa esticando a corrente das algemas, com um disparo certeiro quebra a corrente soltando Othelo da morte certa.

Os três apressam-se para sair do interior daquele sarcófago metálico em que se tinha transformado o helicóptero.

Afastam-se nadando em direcção a uma pequena ilha no meio do rio. Pedro olha para trás e fica a observar a descida do helicóptero para o fundo das águas escuras do rio. Com ele ia Teresa, Lourenço e outros ocupantes que certamente pertenceriam à brigada do agente Lourenço. Ficou por instantes a pensar como tinha sido enganado todos estes anos. Passara todo este tempo a dormir com o inimigo, partilhando sentimentos, confidências, carinho, tudo isso com uma mulher que ainda há momentos se preparava para o obrigar a morrer afogado com uma frieza nos olhos, como se uma estranha se trata-se.

De repente, lembra-se de Afrodite. Perscruta as águas em busca do colete amarelo que lhe havia posto antes de a soltar nas águas frias do rio. Encontrou-a a flutuar a poucos metros de si. Nadou até ela. Agarrou-a pelas costas mantendo sempre a cabeça dela fora de água e nadou para a ilha onde já se encontravam Mary e Othelo estendidos na areia da pequena praia.

(continua)

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A Fuga – Parte 4

Fevereiro 2, 2008

 Pedro sentiu o telemóvel a vibrar no bolso do uniforme.

Ponderou por instantes se pegava ou não no aparelho para ver quem queria falar com ele.

Olhou para Mary ao seu lado. Mary parecia petrificada, os olhos esbugalhados fixos num ponto qualquer na linha do horizonte.

Pedro deu-lhe um toque com o cotovelo.

“Aposto que nem consegues fechar a viseira do capacete?” Disse Pedro.

“Ahhh… que estás para aí a dizer? Fechar a viseira? Claro que consigo.”

“Nahhh… vai-te bater nas orbitas, eh eh. Com esses olhos esbugalhados não a consegues baixar.”

“Cala-te… ainda arranjas tempo para gracinhas. Não sei onde estava com a cabeça quando aceitei este teu plano maluco? Tínhamos executado o plano do DeCosta e já estava tudo resolvido.”

“Olha, tens razão…”

“Tenho? Tu és mesmo um sacaninha… então porq…”

“Está calada. Estava tudo resolvido porque nós os dois já estávamos mortos, percebes? Como podes achar que conseguíamos os dois fazer frente a esta gente toda? Ainda por cima junto a uma base militar do inimigo. Era morte pela certa. Eu depois falo com o DeCosta. Fez um plano DeBosta, eheheheh…”

“Não sei se vamos acabar vivos depois disto também?”

“Olha… preciso que assumas os comandos por uns instantes.”

“Assum… Tas tolo?” Mary quase saltou do assento.

“Shiuuuu, fala baixo… Tenho para aqui o telelé a tocar. Olha, já parou. Pronto deixa lá já não preciso.”

“Deves andar a tomar daquilo que faz rir! Eu sei lá pilotar esta cena.”

“Já introduziu as coordenadas tenente…Carvalhosa?” Perguntou Afrodite tentando ler ao mesmo tempo o nome que estava escrito no uniforme.

“Vou tratar disso mesmo agora, só estava à espera de adquirir velocidade e altitude de cruzeiro, senhora ministra, excelência…”

“Diga-me uma coisa? Há alguma dificuldade de ligação de telemóvel a partir deste aparelho? É que tentei fazer uma chamada ainda agora e não consegui.”

“Uhh… dificuldade?? Não, nenhuma, pelo contrário, temos aqui melhor sinal que em terra. Mas se quiser eu posso fazer a chamada via rádio e depois transferi-la para o seu auricular do capacete.”

“Pode fazer isso? Ficava-lhe agradecida.”

“Posso, não há problema. Dê cá o número que ali o meu colega… uhhh, Baldaia faz o serviço.”

“Insira primeiro as coordenadas. Eu já lhe dou outro papel com o número.”

Pedro pegou no papelito que a ministra lhe tinha dado e desdobrou-o. Nele estavam escritas as coordenadas de um ponto e nada mais. Nenhuma referência a um local.

Inseriu as coordenadas no teclado do GPS.

39º 16′ 35.35” N

7º 48′ 27.18” O

O GPS recalculou a rota e apresentou-a no computador de bordo. Indicava o rumo Sul e a distância a que estavam desse local. Pelos valores apresentados parecia tratar-se de um local algures a Sul do Tejo.

O helicóptero girou suavemente para se colocar na rota agora introduzida. Pedro inclinou ligeiramente a manche para a frente, aumentou o ângulo de ataque das pás através dos pedais e sentiu a máquina a inclinar-se ligeiramente para a frente e para baixo e adquirir velocidade.

“Aqui tem o numero.” Disse Afrodite enquanto estendia a mão com um pequeno papel.

Pedro pegou no papel e leu os números.

O número parecia-lhe familiar. Leu e releu os números uma e outra vez, até que de repente se deu conta que aquele número de telefone era o seu.

Ficou estarrecido, o rosto pálido como a cal. Entregou o papel a Mary.

“Olha esse número. Não te parece familiar?”

“Uhhh…deixa ver. Sim, é o teu número de telemóvel. Mas…, como é que a ministra tem o teu numero de telemóvel? Tu não me digas que…Traidor…”

“Shiuuuu… está calada, não digas disparates. Não sou nenhum traidor.”

“Como não!!! Agora percebo bem o teu plano para tomares conta do helicóptero. Tudo não passou de uma artimanha bem montada para me capturarem e assim deceparem a organização. Eu nem acredito…”

“Shiuuu… para com isso, estás tola ou…” Pedro nem teve tempo de acabar de falar. Mary levantou-se do assento, dirigiu-se para a ministra e sacou da pistola encostando-a à cabeça da governante.

“Pousem já esta merda senão vão comer miolos de ministra ao almoço.” Gritou Mery com uma expressão quase demoníaca na face.

“Estás doida??? Para lá com isso, que estás tu para aí a fazer? Agora é que vamos morrer todos.”

O interior do helicóptero foi invadido por um sentimento misto de terror e de espanto. Afinal que se estava ali a passar, perguntavam uns para os outros com o olhar.

“Pousa isto, traidor… como é que eu pude ser tão facilmente enganada. Meus amigos…eu tomo posse deste aparelho em nome do governo da Madeira. Aqui a ministra beldade vai ser minha convidada durante os próximos tempos. Qualquer movimento em falso e vamos todos para o céu dos pardais, ok?”

Lourenço sente um sabor amargo percorrer-lhe o tubo digestivo até à boca, como podia ter acontecido aquilo, mesmo nas suas barbas, tinha de agir. Lentamente tira a sua arma de dentro do casaco e engatilha a arma de modo quase imperceptível. Sem levantar o braço aponta a pistola a Mary. Othelo apercebendo-se do que Lourenço estava a preparar, no momento exacto em que Lourenço se preparava para desferir um golpe, quase de certeza fatal, em Mary, deu-lhe um encontrão fazendo com que o disparo falha-se a sua amiga.

Mary reagindo ao disparo de Lourenço, dispara sobre ele.

Lourenço sente um choque no peito e um calor, como se lhe tivessem encostado um ferro em brasa. Mas rapidamente o calor dá lugar a uma sensação de frio. Começa a perder forças. A vista turvasse-lhe e cai para cima de Othelo. Mary tinha acertado em cheio no coração de Lourenço matando-o.

Ainda todos se recompunham do choque quando o helicóptero abana com violência tal que projecta Mary contra Afrodite. O som dos avisos do sistema de navegação aumentava. O cockpit parecia uma arvore de Natal com luzes a piscar por todo o lado.

“Vês o que fizes-te…” Gritou Pedro, agarrando-se desesperadamente aos comandos da aeronave que agora mais parecia um touro mecânico.

O tiro de Lourenço que tinha falhado Mary tinha-se alojado no computador de bordo do helicóptero, fazendo com que este perdesse toda a capacidade de continuar no ar. Havia que pousar o quanto antes.

(continua)