Arquivo de Junho, 2008

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Boca do Lobo

Junho 14, 2008

“Que tem escrito nesse papel, Pedro?”

Pedro leva a mão ao bolso da camisa, retira um papel branco, dobrado e entrega-o a Mary.

“Lê tu mesma.”

Mary desdobra o papel e começa a ler. Era uma mensagem de correio electrónico cujo remetente era nada mais nada menos que Afrodite.

“É pá!!!! Mas esta gaja tem cá um descaramento, de início queria-nos tirar a tosse e agora vem com estas falinhas mansas, bahhh. Não me digas que acreditas no que ela escreveu aqui?”

Pedro não respondeu, não queria responder. Afinal a pergunta que Mary lhe fazia já ele a tinha feito a si próprio vezes e vezes sem conta.

“Pedro… eu fiz-te uma pergunta! Responde por favor. Diz-me se acreditas no que está aqui escrito.”

“Porque não, se tudo o que está aí escrito faz sentido.”

“Ainda gostas dela, não é?”

“Que tem isso a ver?”

“Responde…tem tudo a ver, porque só uma pessoa cega pelo amor consegue acreditar nisto que está aqui escrito.”

“Se gosto dela ou não…, não sei. Depois do que se passou connosco também eu acho que existem algumas explicações a dar por ela… e por mim, mas acho que ela está a ser sincera e o que ela diz faz muito sentido.”

“Mas tu acreditas que o DeCosta é realmente um agente infiltrado?”

“Pensa Mary. Quem mais sabia dos nossos passos depois da nossa fuga do desastre de helicóptero? Como sabiam eles que carro alvejar na auto-estrada, quando tudo foi tratado entre o libanês e o DeCosta?”

“Realmente é verdade, mas não quer dizer que tenha sido o DeCosta. Porque não pensas no Fidalgo, por exemplo?”

“Sabes, junto com esse e mail tinha um outro na minha caixa de correio que eu não imprimi.”

“Era do Fidalgo?”

“Precisamente.”

“Que dizia?”

“Dizia que o DeCosta não aparecia na sede desde ontem, mas que fora visto no aeroporto de Sá Carneiro a embarcar num voo para Londres. Dizia também que tinham desaparecido todos os ficheiros referentes a mim e a ti, bem como toda a investigação que eu e o Othelo andávamos a fazer.”

Mary estava estarrecida. Nem queria acreditar em tudo o que ouvia.

“Mas tu acreditas no que o Fidalgo te disse? E não será ele o infiltrado, escrevendo isso para incriminar o DeCosta?”

“Conheço o Fidalgo desde miúdo. Éramos vizinhos e grandes amigos, tenho nele uma confiança total.”

“E o Fidalgo que vai fazer agora?”

“Ele já fez. Fugiu para o Funchal. Alias o mail já foi enviado de lá.”

“Como consegui ele escapar?”

“Utilizou o método UPS.”

“Método UPS? Que método é esse?”

“He he he, é um método que eu e ele desenvolvemos para aplicar em caso de emergência, que consiste em arranjar um caixote de cartão grande o suficiente para caberes lá dentro. Depois compras duas pizzas e uma garrafa de dois litros de refrigerante. Com a ajuda de um amigo de confiança metes-te lá dentro, o amigo fecha a caixa e remete-a como encomenda especial para o Funchal pela UPS. Como vês é simples e eficaz.”

“Ah ah ah ah , só espero que ele não tenha tido vontade de ir á casinha.”

“Sim, pensamos nisso também, por isso além da pizza e do refrigerante levou também um garrafão de água de cinco litros para poder mudar a água ás azeitonas. Quanto ás outras necessidades há que aguentar. Afinal é sempre melhor que ser apanhado pela polícia secreta, não é?”

Pedro parou o carro parou na berma da estrada. Ao longe uma placa azul assinalava um nó da auto-estrada.

“Porque paramos Pedro?”

“Mary, eu vou para Lisboa. Vou encontrar-me com o meu destino, por isso acho que não seria justo obrigar-te a ir comigo, ficas aqui.”

“Mas.. mas… aqui? No meio do nada?”

“Tens ali á frente uma paragem de autocarro, dali vais para onde quiseres.”

“Separamo-nos ao fim de tantas peripécias que passamos. Vamos fugir como fez o Fidalgo, não sejas idiota, vais cair numa armadilha.”

“Eh eh eh eh, já viste bem o tamanho do caixote que seria necessário para nos levar os dois?”

“Estás-me a chamar gorda?”

“Não… não, só te digo que nós os dois dentro de um caixote tinha de haver espaço para a malandrice, eh eh eh…”

“Tonto, vou ter saudades tuas.”

“Eu também minha loira louca.”

Os dois amigos abraçaram-se emocionados. Mary saiu do carro e viu Pedro afastar-se a grande velocidade rumo ao seu destino, rumo a Afrodite.

(continua)

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Fraquezas da carne

Junho 4, 2008

A noite caíra. Pedro e Mary aproveitaram para se esgueirarem pelas ruas desertas. Hora de jantar e nem vivalma nas ruas. De dentro das casas vinham os ruídos característicos das famílias sentadas à mesa a compartilhar a refeição, aqui e ali o barulho dos televisores falava mais alto. Era dia de jogo grande da liga dos campeões, isso ajudava a explicar o porquê de não haver gente na rua, afinal não era todos os dias que dois grandes clubes portugueses disputavam a final da liga milionária, Porto e Sporting.

Pedro e Mary cruzaram a vila de ponta a ponta, havia horas que não ouviam nem viam sinais dos helicópteros negros a cruzarem os céus em sua busca. Sabiam, no entanto, que tal nada significava, ou melhor, significava que muito provavelmente teriam de ter ainda mais cuidado pois a eventualidade das buscas se efectuarem em terra era forte, afinal de contas não existiam sistemas de rastreio nocturno, haviam sido cortados do orçamento das forças especiais para dar lugar a um jogo de jantes para a viatura oficial do ministro das finanças.

A saída da vila, um pequeno café chamava por Pedro como as sereias chamam os marinheiros em alto mar, só que não era com musica que o apelo era feito senão com um cartaz com letras pretas em fundo branco dizendo, “HOJE HÁ LEITÃO”.

Pedro olhou para Mary como que a confirmar a visão que tivera e antes que esta esboçasse qualquer reacção já ele tinha irrompido café adentro.

O estabelecimento estava vazio. Por detrás do balcão uma mulher gorda de avental e camisa sem mangas aproximou-se do esfomeado cliente. Mudou o palito de um canto da boca para o outro a boca a esboçar um sorriso atrevido.

“Boa noite… O que vai ser jeitoso?”

“Leitão… Quero leitão…”

“E para beber?”

“Espumante, claro… Bruto…”

“Bruto, é?… Espero que não jeitoso.” Disse entre dentes.

“Ah… Que disse?”

“Nada, nada… E o side car que vai querer?”

“Side car…? Está-se a referir a mim?”

“Sim madame, que vai ser?… Não sei como há homens que gostam destas trica-espinhas”

“Desculpe… Estava a falar comigo?”

“Euuuuu… não, a riqueza deve estar a ouvir mal.”

“Pedro, estás a ver esta lambisgóia badoxa que se está a meter comigo. Oh pá, tu come lá esse malfadado leitão e que te saiba bem. Considera este um sacrifício que faço por ti.”

“Bahhh, não leves a sério, não vês que a fulana é uma descompensada sentimental, dá-lhe um desconto.” Disse Pedro baixinho ao ouvido de Mary.

“Então a menina já sabe o que quer?” Perguntou a mulher gorda lançando um olhar de desdém.

“Quero uma sandes de presunto e uma cerveja gelada.”

“A menina tem nome?” Perguntou Pedro.

“Ai rico… Menina, hihihihih, já ninguém me chama assim desde desde os meus tempos de catequista. Chamo-me Brigida, mas os amigos chamam-me Moby.”

“Pffffffffffffffffff”

Mary cuspiu a cerveja que havia engolido e soltou uma gargalhada.

“Que foi riqueza… Tinha espinhas a cerveja?”

“Não, nada, engasguei-me senhora Dick. Pffffffffffffff”

“Ai querem lá ver que vou estrear este bastão de baseball que o meu Almerindo me mandou dos estates nos ossos deste palito loiro.”

“Olhe lá se o palito não lhe fica atravessado na boca.” Disse Mary levantando-se da cadeira e assumindo uma posição de confronto.

“Mary senta-te, por favor, se há uma coisa que não queremos é dar nas vistas, ok.”

“Oh jeitoso, segura lá a língua da tua mariazita porque senão vamos ter farinha de pau hoje.”

“Mary, acalma-te lá, fica aqui sentada que eu vou dar duas a abater à badoxa.”

“A menina por acaso não tem um computador aqui no café, pois não?”

“Por acaso até tenho jeitoso, porque perguntas?”

“Precisava de ver os meus mails, sabe ando todo o dia fora da firma a vender e depois ao fim do dia tenho de ver os mails. Normalmente uso o meu portátil, mas hoje por azar o nosso carro avariou e teve de ser rebocado e eu esqueci-me dele no porta-bagagens .”

“Anda aqui à minha salinha que eu deixo-te mexer em tudo que quiseres.”

“Ahahahaha…obrigado mas só preciso do computador.”

“Pelo sim pelo não eu faço-te companhia. Fica aí o palito a tomar conta da casa.”

“Mary eu vou ali dentro consultar os meus mails no computador desta menina e já volto.”

“Vai lá vai, mas vê lá se ela quer que lhe abanes a barraca.”

Pedro sentou-se em frente ao teclado, a mulher gorda pendurou-se nas costas dele encostando a cara ao ouvido dele murmurando.”

“Sabes… Quando o meu Almerindo me mandou o bastão eu pensava que era para outra coisa, o malandro só pensa em sexo, é cá um tarado… Só depois da primeira noite é que reparei no bilhete que vinha junto com o bastão a explicar a utilidade daquilo. Eu bem que tentava ver onde raio se metiam as pilhas, mas nunca dei som o sitio, pensei, deve ser daqueles manuais, estes americanos têm uma cabeça para as invenções, hec, hec, hec…”

“Sim, sim…”Balbuciava Pedro sem prestar a menor atenção ao que a mulher lhe confidenciava, estava concentrado num mail que acabara de receber.

“Posso usar a impressora?”

“Oh rico usa o que quiseres.”

“Acho que já tenho tudo o que queria. Obrigado.”

“Pois, até pode ser… mas eu não…”

Pedro é entalado contra a parede e a mulher gorda com um movimento brusco arranca-lhe a folha de papel da mão e enfia-a cintura abaixo.

“Mas então, dê cá isso. Minha senhora, acho que há um mal entendido aqui.”

“Ai agora sou senhora, é? Ainda há pouco era menina… Como o tempo passa depressa. Sabes este escritório também tem uma cama, é muito versátil.”

A mulher afasta-se de Pedro e agarrando-lhe a camisa tenta levá-lo para o quarto.

“Mary… Ajuda-me…” Gritava Pedro desesperado.

Mary do outro lado do balcão nada ouvia de tal forma estava entretida a degustar a sua sandes de presunto.

Na rua em frente ao café duas viaturas de cor escura param bruscamente, de dentro saem quatro homens vestidos de negro e dirigem-se ao interior do café.

Mary apercebendo-se dos movimentos no exterior do café levanta-se e dirige-se para a parte detrás do balcão em direcção ao escritório para onde vira Pedro entrar.

Ao cruzar a porta ouve os apelos de ajuda de Pedro. Seguindo o som da voz de Pedro dá de caras com ele por baixo da frondosa mulher, com um movimento brusco consegue desequilibra-la atirando-a ao chão e assim resgatar Pedro daquele cárcere carnal.

Pedro ofegante apanha o papel do chão agarrando-se a Mary procurando apoio.

“Não temos tempo para isso, temos companhias indesejáveis. Isto deve ter saida para as traseiras, não?”

“Deve ser por aquela porta.” Disse Pedro apontando para a porta ao lado da cama.

De facto aquela porta dava para um pequeno quintal onde existia um limoeiro e uma horta. Ao fundo um pequeno anexo que lhes pareceu ser uma garagem, pois confinava com o caminho que contornava o café e o terreno nas traseiras.

Ao abrir a porta do anexo vêm confirmadas as suas suspeitas. Lá dentro um automóvel, um mercedes 180 de 1975, aparentemente em bom estado.

Pedro procura no interior as chaves do dito e para espanto seu lá estavam elas direitinhas na ignição.

“Tipico de badoxas, heheheh… Nem se dão ao trabalho de guardar as chaves do carro por preguiça.” Comentou Pedro.

“Também já viste se elas traziam as chaves no bolso das calças como é que a conseguiam tirar de lá depois de sentadas?”

“Mary abre a porta da garagem e vê se está alguém por aí.”

A pequena rua encontrava-se deserta. Ao sinal de aprovação, Pedro arranca abrandando no exterior da garagem para que Mary entre, aceleram pela ruela abaixo.

Entretanto no interior do café os homens de Francisco encontram a dona do mesmo e trazem-na à presença do seu lider.

“Ora ora… que temos nós aqui? Onde está o casal maravilha?”

“Quem são vocês? Que querem de mim?”

“Diz-nos onde está o casal maravilha e não te incomodamos mais.”

“Esteve aqui um casal, sairam pelas traseiras.”

Francisco dá instruções a quatro dos seus homens para irem verificar as traseiras do edifício.

“Que queriam eles daqui?”

“Além de comer o rapaz pediu-me para aceder ao computador, disse-me que eram vendedores de não sei bem o quê, e que precisava de ver a caixa do correio dele.”

“Leva-me ao computador.”

Com um toque no rato Francisco activa o computador abrindo de seguida o programa de correio electrónico, mas a sessão havia sido encerrada e não havia maneira de obter a informação que Pedro havia obtido momentos antes.

Irritado vira-se para a dona do café agarrando-a pelo braço com força.

“Que mais fez ele neste computador?”

“Ehrrr…Nada… além de imprimir um dos mails não fez mais nada.”

Entretanto voltam os homens que tinham ido investigar as traseiras do edifício, transmitindo de imediato a Francisco o que viram nas traseiras.

“Que havia na garagem nas traseiras?”

“O meu carro… havia??? Ai valha-me deus roubaram-me o carro, grandecissimos filhos da p…”

“Que carro era, marca, modelo e matricula, rápido não tenho tempo a perder”

Francisco e os seus homens entram nos respectivos carros e arrancam a toda a velocidade.

 

(continua)