O carro galgava a estrada com uma velocidade vertiginosa.
As portagens dos Carvalhos tinham ficado para trás. Pedro olhava compenetrado a estrada. Ambas as mãos no volante, o pescoço ligeiramente inclinado para a frente, o olhar fixo nos outros veículos que ultrapassava com voracidade. Parecia que comia os carros com os olhos.
Mary encostada ao banco, ambas as mãos bem agarradas aos estofos, a face lívida, parecia que estava a ver a vida a passar-lhe pela frente. A cada ultrapassagem cravava mais fundo as unhas nos estofos, como se o couro dos assentos fosse a única coisa que a podia acalmar e dar a segurança que a condução audaciosa de Pedro não lhe conseguia dar.
“Grrrr… Pedro, Mary… Aqui DeCosta, escuto.”
Mary até deu um salto no banco. Era como se alguém a tivesse acordado no meio de um pesadelo. Só que o pesadelo era real, aquela perseguição estava a dar-lhe cabo dos nervos.
Pegou no rádio para responder a DeCosta que aguardava do outro lado.
“D.. DeCosta… Que se passa? Quais são as informações que tens sobre a localização do Othelo?”
“Diz escuto…”
Disse Pedro sem tirar os olhos da estrada.
“Qu… Que dizes?”
“Tens de dizer escuto no final da mensagem, já te esqueces-te? Assim ele não sabe se já acabas-te de falar.”
“Oh pá, esta perseguição até me está a deixar meio abananada. Acho que quando sair do carro, se sair com vida, não é, o meu esqueleto vai ficar marcado no couro do banco.”
“Exagerada… Só vou a 230 Km/h. Isto ainda dá mais.”
“Mary… terminaste a ultima comunicação? Escuto…”
“Ahhhh… Desculpa DeCosta, mas eu tenho dificuldade em pensar… tenho os neurónios todos encostados à nuca, tamanha é a velocidade que este carro leva, escuto.”
“Ahhahahaha, afinal foi para isso que compramos o maquinão, não foi? Bom, mas de qualquer maneira vamos ao que interessa, escuto.”
“Sim… dá-nos as ultimas coordenadas do Othelo, escuto.”
“Tudo leva a crer que eles se dirigem para a base aérea de Maceda, perto de Ovar. Neste momento estão a cruzar a zona dos Carvalhos pela nacional 1, escuto”
“Isso quer dizer que já passamos por eles. Qual é o teu plano de acção DeCosta? Escuto”
“A minha ideia é vocês interceptá-los na estrada que faz a ligação da nacional à base. Essa estrada passa por uma zona de denso pinhal, o esconderijo perfeito para uma emboscada. Escuto.”
“Vamos a isso, faz o upload das coordenadas aqui para o GPS do carro, escuto.”
Segundos após o GPS dá sinal de recepção de novas coordenadas.
“Temos de sair na saída de St.ª M.ª da Feira. Já lá estamos a chegar.”
Disse Pedro, olhando de para as novas indicações que o GPS lhe apresentava em holograma no para-brisas.
Entretanto, a caravana em que seguia Othelo, a ministra, Lourenço e a sua brigada seguia pachorrentamente pela estrada nacional 1.
“Para onde vamos com o prisioneiro?”
Perguntou Lourenço.
“Para já só te digo que vamos apanhar o heli na base de Maceda.”
“Mas que bicho te mordeu? Perdes-te a confiança em mim?”
“Deves pensar que sou burra, não é?”
“Uhhh… Não sei a que te referes? Que queres dizer com isso?”
“Vá lá… não te faças de distraído. Queres ver como eu te avivo a memória num instante?”
“Não sei porquê mas não estou a gostar nada do rumo da conversa.”
“Qual é a tua relação com uma tal de Elora Lungu?”
Lourenço ficou branco como a cal.
“Elo… não sei de quem falas.”
“Ohhh… não te faças de sonso. Eu já sei tudo o que queria saber, só espero que tenhas a honestidade de admitir.”
“Mas como descobris-te?”
“Isso não vem ao caso. Gostas dela, não é?”
“Não é o que estás a pensar… aconteceu… eu para te ser franco até nem queria.”
“Para o carro… ” Berrou Afrodite ao condutor. O carro imobilizou-se de imediato levanto toda a caravana a travar bruscamente.
“Sai do carro. Sai, não quero compartilhar nem mais um átomo de oxigénio contigo. Crápula.”
Lourenço olhava para o chão do carro.
“Pensar que sem mim não passavas de um mero agente de segurança da PSP. Ingrato. Sai, já disse.”
Afrodite empurrou Lourenço contra a porta até que este a abriu e se levantou saindo do interior do carro.
“Afro… tens de me dar uma oportunidade de te explicar. As coisas não são bem assim. Nem tudo é preto e branco, existem outras nuances de cinzento.”
“Põe-te a milhas se não queres ficar com umas nuances de roxo nos olhos, ingrato.”
Afrodite fechou a porta do carro e deu instruções ao motorista para seguir viagem.
Lourenço entrou numa das carrinhas que seguia atrás na caravana. Os seus pensamentos eram um misto de alívio e tristeza. Não era assim que ele queria que Afrodite soubesse.
Vieram-lhe à cabeça os momentos que passara com Afrodite, mas no fundo a sua cabeça já só recorria à imagem de Elora…
Elora era uma bonita agente da policia secreta Israelita, a Mossad. Tinha vindo a Lisboa dar uma sessão de formação aos agentes da secreta da república, entre os quais estava Lourenço.
A primeira vez que cruzaram o olhar Lourenço teve a sensação de “dejavu” mais intensa que jamais tivera. Tinha a sensação que conhecia aquela mulher. Mas só podia ter acontecido em sonhos. Nem um nem outro se haviam cruzado antes.
A empatia entre ambos ficou logo patente na primeira troca de olhares. Daí ao convite para jantar foi um passo. Escolhera um restaurante da linha, com vista para a foz do Tejo. Conversaram, trocaram ideias, piadas, inconfidências como se já fossem velhos amigos que já não se viam à muito tempo.
Lourenço ofereceu-se para a levar ao hotel onde estava hospedada, mas ela recusou. Sentiu que tamanha empatia entre ambos acarretava um risco muito grande de acordar na manhã seguinte com aquele homem na cama.
Elora não queria isso, pelo menos não agora. Sentia uma atracção forte por Lourenço mas a sua cabeça repetia-lhe vezes sem conta…
“Toma cuidado…Olha que ele é bom demais para ser verdade…”
Como tinha por norma respeitar muito aquilo que a sua consciência lhe mandava fazer, optou por ir para o hotel de táxi.
Nos dias seguintes Lourenço andava nas nuvens. Só queria estar ao pé de Elora. Chegou a ameaçar um colega de curso que se tinha rejeitado a trocar de lugar com ele para assim ficar mais perto dela.
Cada frase dela, Lourenço absorvia como se de uma abelha e tratasse e as palavras de Elora o doce néctar que o alimentava.
No final do segundo dia de curso voltou a convida-la para jantar.
Elora recusou. Alegou que estava cansada por causa do “jet lag”.
Lourenço não desistiu. Todos os dias a convidava. Elora lá ia dando desculpas, umas mais esfarrapadas que outras, para não ter que se submeter à tentação que cada dia sentia que a estava a tomar de assalto.
Até que chegou o último dia do curso. Lourenço, já desanimado com tantas “tampas” que havia levado nos dias anteriores, a convidou sem convicção que ela fosse aceitar. Mas aceitou, rematando o assentimento com uma provocação.
“Esta noite quero que seja a noite das noites.”
Lourenço quase desmaiava de tanta alegria. Apetecia pregar-lhe com um beijo. Ainda esboçou o movimento, mas logo foi reprimido por Elora.
“Tem calma… Aqui não é o local.”
Nessa noite jantaram, mas Lourenço quase nem tocou na comida. Estava completamente extasiado com a ideia de nessa noite sentir o seu corpo com o corpo dela. Pele com pele, numa troca de calor que faria fundir o mais rijo dos metais.
Dirigiram-se ambos para casa de Lourenço, entraram e fecharam a porta atrás deles. Na sombra projectada no vitral da porta da entrada podia-se perceber que se beijavam.
Foi essa a visão que teve Afrodite.
Estava dentro do carro, estacionado do outro lado da rua.
A raiva tomou conta dela. Num primeiro impulso ainda abriu a porta do carro para sair e dirigir-se à casa de Lourenço e pôr um termo àquela pouca vergonha.
Mas conteve-se, pensou para ela que a vingança é um prato que se serve bem frio…
Voltou a entrar no carro e arrancou.
(continua)


