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A fuga – Parte II

Janeiro 19, 2008

 O carro galgava a estrada com uma velocidade vertiginosa.

As portagens dos Carvalhos tinham ficado para trás. Pedro olhava compenetrado a estrada. Ambas  as mãos no volante, o pescoço ligeiramente inclinado para a frente, o olhar fixo nos outros veículos que ultrapassava com voracidade. Parecia que comia os carros com os olhos.

Mary encostada ao banco, ambas as mãos bem agarradas aos estofos, a face lívida, parecia que estava a ver a vida a passar-lhe pela frente. A cada ultrapassagem cravava mais fundo as unhas nos estofos, como se o couro dos assentos fosse a única coisa que a podia acalmar e dar a segurança que a condução audaciosa de Pedro não lhe conseguia dar.

“Grrrr… Pedro, Mary… Aqui DeCosta, escuto.”

Mary até deu um salto no banco. Era como se alguém a tivesse acordado no meio de um pesadelo. Só que o pesadelo era real, aquela perseguição estava a dar-lhe cabo dos nervos.

Pegou no rádio para responder a DeCosta que aguardava do outro lado.

“D.. DeCosta… Que se passa? Quais são as informações que tens sobre a localização do Othelo?”

“Diz escuto…”

Disse Pedro sem tirar os olhos da estrada.

“Qu… Que dizes?”

“Tens de dizer escuto no final da mensagem, já te esqueces-te? Assim ele não sabe se já acabas-te de falar.”

“Oh pá, esta perseguição até me está a deixar meio abananada. Acho que quando sair do carro, se sair com vida, não é, o meu esqueleto vai ficar marcado no couro do banco.”

“Exagerada… Só vou a 230 Km/h. Isto ainda dá mais.”

“Mary… terminaste a ultima comunicação? Escuto…”

“Ahhhh… Desculpa DeCosta, mas eu tenho dificuldade em pensar… tenho os neurónios todos encostados à nuca, tamanha é a velocidade que este carro leva, escuto.”

“Ahhahahaha, afinal foi para isso que compramos o maquinão, não foi? Bom, mas de qualquer maneira vamos ao que interessa, escuto.”

“Sim… dá-nos as ultimas coordenadas do Othelo, escuto.”

“Tudo leva a crer que eles se dirigem para a base aérea de Maceda, perto de Ovar. Neste momento estão a cruzar a zona dos Carvalhos pela nacional 1, escuto”

“Isso quer dizer que já passamos por eles. Qual é o teu plano de acção DeCosta? Escuto”

“A minha ideia é vocês interceptá-los na estrada que faz a ligação da nacional à base. Essa estrada passa por uma zona de denso pinhal, o esconderijo perfeito para uma emboscada. Escuto.”

“Vamos a isso, faz o upload das coordenadas aqui para o GPS do carro, escuto.”

Segundos após o GPS dá sinal de recepção de novas coordenadas.

“Temos de sair na saída de St.ª M.ª da Feira. Já lá estamos a chegar.”

Disse Pedro, olhando de para as novas indicações que o GPS lhe apresentava em holograma no para-brisas.

Entretanto, a caravana em que seguia Othelo, a ministra, Lourenço e a sua brigada seguia pachorrentamente pela estrada nacional 1.

“Para onde vamos com o prisioneiro?”

Perguntou Lourenço.

“Para já só te digo que vamos apanhar o heli na base de Maceda.”

“Mas que bicho te mordeu? Perdes-te a confiança em mim?”

“Deves pensar que sou burra, não é?”

“Uhhh… Não sei a que te referes? Que queres dizer com isso?”

“Vá lá… não te faças de distraído. Queres ver como eu te avivo a memória num instante?”

“Não sei porquê mas não estou a gostar nada do rumo da conversa.”

“Qual é a tua relação com uma tal de Elora Lungu?”

Lourenço ficou branco como a cal.

“Elo… não sei de quem falas.”

“Ohhh… não te faças de sonso. Eu já sei tudo o que queria saber, só espero que tenhas a honestidade de admitir.”

“Mas como descobris-te?”

“Isso não vem ao caso. Gostas dela, não é?”

“Não é o que estás a pensar… aconteceu… eu para te ser franco até nem queria.”

“Para o carro… ” Berrou Afrodite ao condutor. O carro imobilizou-se de imediato levanto toda a caravana a travar bruscamente.

“Sai do carro. Sai, não quero compartilhar nem mais um átomo de oxigénio contigo. Crápula.”

Lourenço olhava para o chão do carro.

“Pensar que sem mim não passavas de um mero agente de segurança da PSP. Ingrato. Sai, já disse.”

Afrodite empurrou Lourenço contra a porta até que este a abriu e se levantou saindo do interior do carro.

“Afro… tens de me dar uma oportunidade de te explicar. As coisas não são bem assim. Nem tudo é preto e branco, existem outras nuances de cinzento.”

“Põe-te a milhas se não queres ficar com umas nuances de roxo nos olhos, ingrato.”

Afrodite fechou a porta do carro e deu instruções ao motorista para seguir viagem.

Lourenço entrou numa das carrinhas que seguia atrás na caravana. Os seus pensamentos eram um misto de alívio e tristeza. Não era assim que ele queria que Afrodite soubesse.

Vieram-lhe à cabeça os momentos que passara com Afrodite, mas no fundo a sua cabeça já só recorria à imagem de Elora…

Elora era uma bonita agente da policia secreta Israelita, a Mossad. Tinha vindo a Lisboa dar uma sessão de formação aos agentes da secreta da república, entre os quais estava Lourenço.

A primeira vez que cruzaram o olhar Lourenço teve a sensação de “dejavu” mais intensa que jamais tivera. Tinha a sensação que conhecia aquela mulher. Mas só podia ter acontecido em sonhos. Nem um nem outro se haviam cruzado antes.

A empatia entre ambos ficou logo patente na primeira troca de olhares. Daí ao convite para jantar foi um passo. Escolhera um restaurante da linha, com vista para a foz do Tejo. Conversaram, trocaram ideias, piadas, inconfidências como se já fossem velhos amigos que já não se viam à muito tempo.

Lourenço ofereceu-se para a levar ao hotel onde estava hospedada, mas ela recusou. Sentiu que tamanha empatia entre ambos acarretava um risco muito grande de acordar na manhã seguinte com aquele homem na cama.

Elora não queria isso, pelo menos não agora. Sentia uma atracção forte por Lourenço mas a sua cabeça repetia-lhe vezes sem conta…

“Toma cuidado…Olha que ele é bom demais para ser verdade…”

Como tinha por norma respeitar muito aquilo que a sua consciência lhe mandava fazer, optou por ir para o hotel de táxi.

Nos dias seguintes Lourenço andava nas nuvens. Só queria estar ao pé de Elora. Chegou a ameaçar um colega de curso que se tinha rejeitado a trocar de lugar com ele para assim ficar mais perto dela.

Cada frase dela, Lourenço absorvia como se de uma abelha e tratasse e as palavras de Elora o doce néctar que o alimentava.

No final do segundo dia de curso voltou a convida-la para jantar.

Elora recusou. Alegou que estava cansada por causa do “jet lag”.

Lourenço não desistiu. Todos os dias a convidava. Elora lá ia dando desculpas, umas mais esfarrapadas que outras, para não ter que se submeter à tentação que cada dia sentia que a estava a tomar de assalto.

Até que chegou o último dia do curso. Lourenço, já desanimado com tantas “tampas” que havia levado nos dias anteriores, a convidou sem convicção que ela fosse aceitar. Mas aceitou, rematando o assentimento com uma provocação.

“Esta noite quero que seja a noite das noites.”

Lourenço quase desmaiava de tanta alegria. Apetecia pregar-lhe com um beijo. Ainda esboçou o movimento, mas logo foi reprimido por Elora.

“Tem calma… Aqui não é o local.”

Nessa noite jantaram, mas Lourenço quase nem tocou na comida. Estava completamente extasiado com a ideia de nessa noite sentir o seu corpo com o corpo dela. Pele com pele, numa troca de calor que faria fundir o mais rijo dos metais.

Dirigiram-se ambos para casa de Lourenço, entraram e fecharam a porta atrás deles. Na sombra projectada no vitral da porta da entrada podia-se perceber que se beijavam.

Foi essa a visão que teve Afrodite.

Estava dentro do carro, estacionado do outro lado da rua.

A raiva tomou conta dela. Num primeiro impulso ainda abriu a porta do carro para sair e dirigir-se à casa de Lourenço e pôr um termo àquela pouca vergonha.

Mas conteve-se, pensou para ela que a vingança é um prato que se serve bem frio…

Voltou a entrar no carro e arrancou.

(continua)

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Breve enquadramento da história

Janeiro 11, 2008

 Nesta altura, considero importante proceder a um enquadramento da estrutura macroeconómica/social/policial/ qualquer outra coisa, que eu disto não percebo muito.

O primeiro ministro é de facto Frederico Mendes, filho de Marques Mendes com Manuela Moura Guedes. Chegou ao poder após o golpe de estado que derrubou o incompetente Menezes que em dois anos fechou, nada mais, nada menos, que seis estádios do Euro 2004, incluindo o da Luz, Alvalade XXI e o Bessa.

Sem hospitais, médicos ou reformas, o povo ainda aguentava, agora sem estádios… Nem pensar.

Por outro lado Meneses encontrava-se fortemente debilitado por um ataque de demagogia que o tinha deixado quase sem um único cabelo na cabeça, logo, sem condições para governar.

Afrodite Ewry era a ministra da informação do governo de Mendes. Sob a sua alçada tinha a policia politica que controlava o pais inteiro com mão de ferro. Diziam, as más línguas, que sem Afrodite, Freddyx, como também era conhecido não tinha sobrevivido dois dias no poder. Toda esta convulsão levou à criação de grupos paramilitares nas regiões autónomas, que conduziram à independência dos Açores, e a exigências por parte do governo da madeira com vista à autodeterminação do povo madeirense.

Os Açores, que se tinham tornado num emirado após a descoberta de importantes jazidas geotermais das quais extraía energia, que depois transaccionava para os países desenvolvidos, através do pagamento, por estes, de somas astronómicas. Após o fim do petróleo, as fontes de energia renováveis tornaram-se extremamente importantes, com especial relevo às oriundas das fontes geotermais, cujo rendimento era superior a qualquer outra forma de energia conhecida até então.

A Madeira continuava dependente do turismo. Alberto João ainda era presidente, tinha agora 150 anos de idade, e ainda frequentava o carnaval madeirense.

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A fuga

Janeiro 11, 2008

 ”Raios… As manas foram capturadas. Temos de mudar de poiso rápido.”

“Sr…uhhh…chefe…”

“Anda homem desembucha. Parece que ficas-te gago de repente.” Disse Lourenço impaciente com tanta hesitação.

“É esse gaijo hoje já levou duas lapadas no focinho por causa de umas escapadelas em frente ao prisioneiro.” Comentou Riederer levantando a mão como se fosse atingir o hesitante  colaborador.

“Ahh… errr… é a Ministra.”

“Sim, que tem a Ministra?” Interrogou Lourenço com redobrada impaciência.

“A Ministra chegou. Acaba de ent…”

Nem teve tempo de acabar o que ia dizer. Levou um encontrão que o projectou para a frente fazendo com que se estatelasse no chão com violência.

“Boa noite meus senhores.”

“B… boa noite.” Disse Lourenço surpreendido com a inesperada visita.

“A que se deve esta vista?”

“Não me parecem muito contentes por me ver?”

“Errrr… Não, não é isso. Só estamos admirados, é só. Em 10 anos de serviço nunca tinhas visitado uma brigada em pleno teatro de operações. Qual o motivo?”

Perguntou Lourenço, embora já adivinhasse a resposta. Os recentes desaires tinham chegado ao conhecimento das mais altas esferas do estado, quem sabe se até mesmo ao primeiro ministro.

“Não sabes o motivo? Não te parece obvio? Vocês em 10 anos de carreira, como muito bem frisas-te, nunca tinham tido um contragolpe desta natureza.”

“Mas Afrodite estava tudo muito bem planeado, tínhamos tudo sob controle…”

“Pois, a palavra chave é mesmo essa, “tínhamos”, porque já não têm, não é? Ah… e é Srª Ministra se faz o favor.”

A pergunta não obteve resposta por parte dos seus interlocutores. Afrodite olhava para eles como uma professora olha para os seus alunos que tinham acabado de partir o vidro da escola a jogar à bola. Todos, sem excepção estavam de olhos no chão ouvindo o que ela tinha para dizer, sabiam que tinham cometido erros, e se ela estava ali era porque algo de muito grave se iria passar. Afrodite prosseguiu.

“Sabem quem me acabou de ligar antes de entrar aqui? O nosso primeiro. Sim, esse mesmo, Frederico Mendes em pessoa. Adivinham para que foi que ele me ligou?”

Afrodite falava agora num tom grave, e elevado.

“Com certeza foi para  me desejar boa noite, pensarão vocês? Não, não foi. É que a vossa trapalhada já lhe chegou aos ouvidos. E eu vim aqui, com ordens expressas para acabar, de uma vez por todas, com esta pouca vergonha a que vocês chamam operação.”

“Mas estava tu…” Lourenço nem teve tempo de terminar a frase. Afrodite, com um movimento brusco, levou a mão dela à boca dele, calando-o.

“Schiuuuuu… O meu menino agora já não vai dizer mais nada, entendido? Você vai executar aquilo que eu tenho para lhe dizer.”

Afrodite virou-se para os dois operacionais que a acompanhavam e deu ordem para que fossem buscar o prisioneiro.

“Preparem as viaturas. Vamos sair daqui rápido.”

Os dois operacionais meteram Othelo na carrinha e entraram todos nos carros, com a excepção de Lourenço e Afrodite. Ambos permaneciam frente a frente, como que em desafio mutuo. Aquela desautorização tinha ferido o orgulho de Lourenço. Ela podia ter dito tudo aquilo, afinal tinha toda a razão, mas não em frente a todos e, principalmente, não daquela maneira, pensava Lourenço.

“Que fazes aí a olhar para mim? Anda, entra no meu carro, temos muito que conversar no caminho.”

Entraram ambos e a frota seguiu a toda a velocidade em direcção ao Castelo do Queijo e depois pela Avenida Montevideu, seguindo pela zona da foz.

“Para onde vamos?” Perguntou Lourenço enquanto olhava pela janela para o exterior observando as ruas e os automóveis que passavam.

“Olha para mim.” Disse Afrodite num tom mais calmo.

“Tive de falar contigo daquela maneira por duas razões. A primeira é que realmente estou muito decepcionada com a actuação da tua brigada. Parece trabalho de amadores.

A segunda tem a ver com o facto de, não obstante termos a relação que temos, isso é do domínio privado, não se deve misturar com o trabalho. E isso, tinha de ficar bem claro.”

“Oh, sim, sim… Lá claro ficou.” Comentou Lourenço friamente, continuando a observar o exterior.

“Lourenço, não fazes ideia do que tive de ouvir do nosso primeiro por causa desta trapalhada. Se não fosse por mim já estaria despedido a tua brigada substituída pela do Fokas, entendes? Eles queriam a tua cabeça numa bandeja. Percebes?”

“Mas que diabo é que esses desgraçados dos ilhéus sabem de tão importante?”

“Isso não te posso revelar, mas a tua missão era bem clara, não era?”

“Sim, isso nunca foi o problema, mas por causa da troca tivemos de alterar o modo de operar.”

“Graças a essa troca perdemos já duas operacionais, temos a missão comprometida e temos mais uma agente que está exposta.” Disse Afrodite, enquanto se auxiliava dos dedos da mão para fazer a contagem.

“Isso só vai acontecer se o Othelo sobreviver.”

“Não vais fazer nada ao Othelo, ok? As minha ideia é outra.”

“E pode-se saber qual é?”

“Tenho um helicóptero à nossa espera na base aérea de Maceda. A minha ideia é atrair o Pedro e a Mary para um local onde tenhamos a vantagem do elemento surpresa. Onde estavam não oferecia condições nesse sentido.”

A caravana cruzou a ponte da Arrábida em direcção a Lisboa acabando por sair da auto-estrada nos Carvalhos. O percurso até Maceda ia ser feito pela estrada nacional 1.

Entretanto, no quartel general da SIM DeCosta tinha acabado de delinear o plano de intervenção para libertar Othelo das garras da brigada do Lourenço, quando foi interrompido por Fidalgo.

“Costa, tens de ver isto, vem cá.”

“Que se passa? Qual é a crise?”

“O Othelo está em movimento. Pelos dados do localizador está a mover-se para Sul.

“Bolas, tenho de avisar a Mary e o Pedro, rápido.”

Pegou no rádio telefone e chamou.

“Mary, Pedro, aqui DeCosta, escuto.”

Do outro lado respondeu-lhe Mary.

“Sim, Decosta, escuto”

“Alteração de planos. Othelo em movimento para Sul, escuto.”

 ”Para Sul? Porra, logo agora que estávamos tão perto.” Disse Pedro frustrado com a alteração dos planos.

“Mas vamos para Sul, para onde?” Indagou Pedro.

“Solicito coordenadas, escuto.” Disse Mary de imediato pelo rádio.

“Coordenadas serão dadas quando conhecidas com certeza, escuto. Por agora rumem pela nacional 1 para Sul, escuto.”

“Afirmativo, escuto.”

Pedro, com um movimento brusco no volante e com o auxilio do travão-de-mão, fez um peão com o carro ficando voltado em sentido contrário ao que então circulava. Carregou a fundo no acelerador e puseram-se ao caminho.

(continua)

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Revelação

Janeiro 7, 2008

Ao sinal dos faróis o portão do armazém abriu-se e o carro entrou fechando-se o portão atrás dele.

Lourenço saiu do carro e com ele os dois agentes com Teresa pelos braços.

Ela ia arrastada, como se estivesse inanimada. Cabeça baixa, olhos a fitarem o chão, como se estivesse resignada com a sua sorte.

Othelo ouviu a porta a abrir-se. Olhou na sua direcção e nem queria acreditar no que via.

Teresa foi atirada para o chão como se de um saco de batatas se trata-se.

“Teresa… Que fazes aqui?”

 “Uiiii, brutos… Othelo???”

“Caramba… Esta gente não brinca em serviço.”

“Que estás para aí a dizer. Que se passa contigo e com o Pedro? Como é que dois vendedores de jantes se envolvem com estes brutamontes?”

“Teresa, é uma longa história…”

“Pois trata de começar, porque tempo parece que não vou ter muito.”

“Então? Porque dizes isso?”

“Olha… Eu não sei o que o Pedro fez ou deixou de fazer a estes tipos, mas eles vão matar-me…”

As palavras de Teresa ecoaram na cabeça de Othelo como se estivesse dentro do mais profundo desfiladeiro.

“Matar-te!!! Cobardes.”

“Conta-me o que se passa. Othelo, tenho de saber…”

“Não… Não te posso dizer mais nada.”

Teresa fitava Othelo nos olhos incrédula.

“Não me vais dizer? Eu sou tua amiga Othelo. Fui durante muito tempo tua confidente. Quando arranjas-te aquela americanita, a Juana, fui eu quem te pagou os bilhetes para ires a S. Francisco. Como podes ser tão ingrato.”

“Não ponhas as coisas nesses termos. Isto é maior do que tudo aquilo que possas imaginar. Qualquer coisa que te diga pode comprometer a vida de todos nós.”

“Grande alhada andais metidos… Sim senhor. Olha, nunca pensei que vender jantes pudesse ser um negócio tão arriscado. Diz-me lá quem são eles, só isso. Não te compromete em nada, pois não? Eles são representantes dos assentadores de guias de passeio, são?”

Othelo soltou uma gargalhada, mas depressa levou as mãos à boca para silenciar o riso.

“Associa… Vendedores de guias de passeio… Como raio foste pensar num disparate desses?”

“Então… Os passeios são os maiores inimigos das jantes e vice-versa, não é?”

“Olha… Só te posso dizer isto. Eu e o Pedro não somos realmente quem parecemos ser.”

“Olha muito obrigado. Deves pensar que sou burra, não? Isso já eu percebi, espertinho.”

“Bom, então ficamos por aqui, ok?”

“Othelo…”

“Schiuuuu, está calada, não te digo mais nada.”

“Mau, não sejas bruto. Não era sobre isso que te queria falar agora.”

“Então?”

“Sabes uma coisa?”

“Não, diz.”

“Eu tenho de te confessar uma coisita, agora que vou esticar o pernil.”

“Que queres dizer com isso, tem calma. Vais ver que ainda nos vamos safar. Tens de ter fé.”

“Bom, mas de qualquer maneira acho que te vou dizer de qualquer forma. Nunca se sabe como isto vai acabar.”

Teresa aproximou-se de Othelo ficando ambos em frente um ao outro.

“Othelo… Sabes qual foi o memento mais triste da minha vida?”

“Não.”

“Quando foste para os Estados Unidos, atrás daquela… Juana”

“Teresa, porquê isso agora?”

“Está calado. Deixa-me deitar isto cá para fora.”

“Ok, ok… Não te zangues.”

“Bom, de facto quem te pagou a viagem aos estates fui eu, mas não o fiz porque te quisesse juntar com a Juana. Fi-lo por outra razão.”

“Que razão foi essa então?”

“Fi-lo por saber que era isso que te iria fazer feliz. Foi essa a razão.”

“Não sei se estou a entender o que me estás a tentar dizer.”  

“Não entendes se não quiseres… A verdade é que… errrrr….”

“Anda, diz lá o que tens a dizer.”

“Bom… A verdade é que te amo. Amo-te, prontos, já disse.”

Othelo ficou estático. Era como se lhe tivesse passado pela frente uma escola de samba com as bailarinas todas nuas. A boca aberta e os olhos esbugalhados.

“Errrr… Como é?”

“ Amo-te tonto, sempre te amei, desde o dia em que apareces-te lá em casa.”

“Não fazia ideia. Apanhaste-me de surpresa.”

“Ehehehehehe, nota-se.” Disse Teresa aproximando-se mais de Othelo. Os lábios quase a tocar-se, murmurou…

“Agora que vou bater as botas, quero aproveitar todo este tempo perdido.”

“Tas malu…” Othelo nem teve tempo de acabar a frase. Teresa beijou-o com o ímpeto dos condenados, como se não houvesse amanhã. Provavelmente não haveria…

Othelo afastou delicadamente Teresa quebrando aquele beijo intenso.

“Espera, espera.” Disse sofregamente enquanto recuperava o ar.

“Não, não posso esperar. Quem sabe se daqui a instantes me vêm buscar para me cortar o pescoço.” Teresa agarrava Othelo pela camisa tentando abri-la à força.

“Não sejas maluca, pára com isso. Nos não podemos ter nada um com o outro. O Pedro é o meu melhor amigo, quase como um irmão. Além do mais Teresa, eu não te amo.”

Teresa parou, agarrada a Othelo como se tivesse sido petrificada naquele instante.

“Como podes dizer isso. Nem sequer deste tempo para assimilar a ideia. Eu entendo que estejas chocado, mas ao menos dá-me uma oportunidade. Ainda por cima pode ser a primeira e a ultima. Que tens a perder? O Pedro nunca vai saber.”

“Tu estás louca. Isto não funciona assim. Teresa, tu és uma mulher bonita, sensual… Mas não serás a minha mulher… Eu não te amo, nunca amei.”

Teresa afastou-se como que repelida pela força da revelação.

“O que foi que o Pedro foi fazer a Lisboa?” Disse ela num tom bastante mais sério.

“Não sei. Caramba, que mudança de humor tão brusca!!!”

“O que é que vocês os dois têm a ver com a SIM?”

“Espera lá… Que raio de pergunta é essa? Onde foste buscar esse nome?”

Othelo levantou-se e aproximou-se de Teresa.

“Queres ver que temos aqui uma surpresa? Desde quando trabalhas para o Lourenço e a sua corja de cubanos?”

“Hahahahaahaha… Enganei-vos bem, não foi? Trabalho na brigada do Lourenço desde a sua formação. Sou a agente infiltrada n.º 1369. O meu objectivo era de sacar o maior número de informações do Pedro.”

Othelo espumava de raiva. Como podiam ter sido enganados durante todo este tempo por esta messalina? Agarrou Teresa pelos colarinhos e apertou-a contra a parede com força.

“Tenho vontade de te esmagar como um insecto. És bem merecedora de estar junto com a corja do Lourenço. Não passa de uma barata insignificante.”

A porta  abriu-se de repente e de lá surgiram três vultos. Othelo sentiu um calor na nuca e caiu inanimado.

“Mataste-o estúpido…”

“Nahhh, ainda respira.”

“Não lhe façam mais mal. Quero-o para mim quando isto acabar.” Disse Teresa aos seus companheiros de salvamento.

Entretanto, no “Calor da Noite” DeCosta e Fidalgo preparam-se para interrogar as manas das estações, nome pelo qual ficaram conhecidas as manas Winter e Summer.

DeCosta pediu a Fidalgo que lhe trouxessem a mana mais fria, Winter, para a sala de interrogatórios.

“Ora viva… Quem temos nós por aqui? Veio-nos fazer uma visitinha?”

“Não sejas lorpa… Se não estivesse com as mãos atadas perdias esse risinho antes de tocar no chão.”

“Ui, ui, que violência. Estou a tremer de medo. Onde está o Othelo? Só quero que me digas o armazém, pois o local já sabemos.”

“Eu a ti não te vou dizer nada, porco separatista.”

“Eu se fosse a ti pensava melhor. Sabes que podem acontecer coisas bastante desagradáveis à tua maninha se não colaborares.”

“Nem te atrevas a tocar-lhe.”

“Eu?? Tocar-lhe? Não… Mas tenho na sala do lado dois árbitros e três dirigentes de um clube de futebol que estão ansiosos por ter uma boa diversão.”

“Não, isso não. Não farias tão desumana tortura à minha mana?”

“Se não colaborares é o que vai acontecer. Observa este monitor aqui para veres como eu falo verdade.”

DeCosta aproximou um pequeno monitor de vídeo de Winter. Nele podiam-se ver distintamente cinco homens a observar fotos nuas de Summer enquanto fumavam sofregamente charutos.

“Vocês são mesmo do mais reles que pode haver. Eu falo, com a condição de me trazerem a minha maninha para aqui agora.”

DeCosta fez um gesto com a mão, como que a chamar alguém. A porta da sala abre-se e aparece Fidalgo com a mana Summer algemada.

“Pronto, cumpri com a minha palavra. Agora faz a tua parte.”

“O Lourenço disse-nos para levar a Mary e o Pedro para um armazém na Docapesca, em Leixões.”

“Isso nós já sabemos. O que quero saber é qual o armazém?”

“É o armazém 25.”

 

(continua)

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Contra-ataque

Janeiro 4, 2008

Pedro e Mary aproximaram-se da carrinha que Lourenço tinha enviado para os levar.

Os ocupantes da carrinha vendo-os chegar abriram as portas para sair e receberem os futuros reclusos, mas nem tiveram tempo de o fazer.

Pedro e Mary, vendo que as portas se estavam a abrir, aceleraram o passo, e num movimento rápido escancararam as portas do carro e apontaram as armas à cabeça dos dois ocupantes.

Surpreendidos pela rapidez da acção nem tiveram tempo de reagir, levantando as mãos em sinal de submissão aos seus interceptores.

Pedro puxa um dos ocupantes para fora da carrinha com uma mão, mantendo a arma firme e apontada à cabeça na outra mão.

“Olha, olha… Quem temos nós aqui? Então, além de servires no Caneco também fazes biscates como raptora para o Lourenço?”

“Mary, nem fazes ideia de quem tenho entre mãos?”

“Então… Não me digas que já a conhecias?”

“Uiiii, esta flausina anda disfarçada de empregada de mesa e estava precisamente no pub  onde eu e o Othelo estávamos aquando do desaparecimento dele. Chama-se Winter e tinha uma mana que se chamava Summer, até fiz uma piada com o nome delas na altura. Grandessíssimas …. Ora tira lá esse dai… Ás tantas é ela, a Summer.”

Mary puxou o outro ocupante para fora do carro atirando-o com violência contra a porta traseira.

“Eh pá, Pedro, é uma gaja, deve ser ela, anda cá ver.”

Pedro agarrou em Winter e com brusquidão arrastou-a em torno do carro até poder ver a outra ocupante que Mary tinha sob custódia.

“É ela é. Que iam fazer connosco? Vá, respondam.”

“Não te digo nada, porco” Disse Winter tentando cuspir em Pedro.

“Uiii, calminha aí, minha linda. Afinal quem é o porco? Querias cuspir em mim?”

Mary fez sinal à carrinha onde estavam os outros dois operacionais para que se aproximasse. O veículo fez um arranque brusco e rapidamente colocou-se junto ao local onde eles estavam.

“Vamos levar estas duas flausinas para a sede. Lá vocês vão cantar que nem rouxinóis.” Disse Pedro enquanto pegava em Winter torcendo o braço com força.

A porta lateral da carrinha abriu-se e ambas foram atiradas para dentro. Fecharam a porta e a viatura arrancou a alta velocidade em direcção à Avenida da Boavista.

“Pedro…” Chamou Mary de dentro da carrinha das manas.

“Anda aqui, acho que encontrei alguma coisa que nos pode ajudar a descobrir o paradeiro do Othelo.”

Pedro aproximou-se e reparou que Mary segurava um mapa da área metropolitana do Porto na mão. Nesse mapa encontravam-se assinalados diversos locais a vermelho. Um desses locais era um armazém na zona da docapesca em Leixões. Seria esse, com toda a certeza o local onde estava o Othelo.

De repente ouvem um telemóvel a tocar. Pedro abre o porta-luvas do carro e lá estava o telemóvel a tocar. Era uma chamada de alguém a quem as manas tinham dado o nome de “Don Juan”. Seria Lourenço, pensou Pedro. Queria certificar-se que Pedro e Mary estavam sob a alçada delas conforme planeado.

Pedro atendeu o telefone.

“Aposto que não estavas à espera de me ouvir, palhaço?”

Lourenço ficou uns instantes sem falar, surpreendido em ouvir Pedro. Era sinal que as coisas não lhe estavam a correr conforme planeado. Recompôs-se, com a sua pose altiva e a voz colocada, para não revelar ao seu interlocutor a mínima impressão de desorientação.

“Pedro, Pedro… Afinal és mais burro do que eu pensava. Essa tua acção não vai ficar sem a devida reacção. Sabes… Podes não acreditar, mas… Sou um homem de palavra. Vou cumprir com o que te prometi. Podes dizer adeus à tua mulherzita.”

Lourenço desligou o telefone. Estava possesso. Apertou com tamanha força o telemóvel na mão que o acabou por partir. Tinha perdido a jogada, mas acreditava que ainda não havia perdido o jogo. Afinal ainda tinha Othelo.

“Metam-na no carro com descrição. Não quero despertar a atenção da vizinhança.”

Entraram todos no carro e arrancaram a alta velocidade.

Pedro afastou-se por momentos de Mary. Encostou-se ao muro do cemitério e deixou-se escorregar até ficar acocorado. Chorava… Mary sentia-se impotente perante o sofrimento do seu companheiro. Faltavam-lhe as palavras. Baixou-se e abraçou-o, tentando consola-lo.

“Pedro, temos de continuar. Tens de ter força, o Othelo precisa de nós.” Murmurou Mary ao seu ouvido.

(continua)

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O volte-face

Dezembro 28, 2007

Porto, 23:45 – Cemitério de Agramonte

 

Pedro e Mary chegaram ao local combinado no carro de Pedro. Estacionaram num ao lado da entrada do cemitério e aguardaram dentro do carro.

DeCosta tinha organizado tudo durante a tarde e principio de noite. Tinha disposto uma equipa de apoio composta por dois elementos, Fidalgo e Margarida. Embora ambos tivessem pouca experiência no terreno serviriam de equipa de apoio, caso as coisas não corressem conforme tinha planeado. Ambos aguardavam o desenrolar dos acontecimentos a uma distância segura dentro de uma carrinha fechada equipada com o que de mais moderno existia em equipamento de espionagem.

“Está tudo a correr conforme planeado.” – Disse DeCosta através do auricular de Pedro e Mary.

“Eu não sei, pá. Não gosto deste sitio. Dá-me arrepios”

O telemóvel de Pedro toca. Era Teresa.

“Bolas a Teresa, logo agora.”

“Diz minha querida. Que se passa?”

“ Que se passa… Não te vejo há quase 24 horas e ainda me perguntas que se passa. É preciso ter lata.”

“Tens muitas explicações a dar meu lindo. Mas também não te liguei para isso, tens aqui uns senhores que te vieram procurar, como é que o senhor disse que se chamava…”

Do outro lado, Pedro ouviu o nome do homem que o procurava e a sua expressão passou da indiferença ao terror.

“Lourenço… Disseste Lourenço? Corre-os de casa e chama a policia.”

Tentou sussurrar Pedro, mas sem sucesso, Lourenço já se tinha apoderado telefone.

“Ora viva meu caro Pedro. Como tem passado o senhor? Sabes, sempre quis saber como vivia um humilde vendedor de jantes. Sim senhor… Uma moradia de dois pisos no centro do porto… Uma mulher jeitosa… hummm, hummm”

“Deixa-a em paz” Sussurrou Pedro aterrorizado. Ao seu lado Mary, que não se tinha apercebido ainda da conversa interpelou-o.

“Pedro, larga isso, namoras depois. Parou uma carrinha ao nosso lado, devem ser eles.”

“Ora vês, a tua amiga tem razão. Devias prestar mais atenção ao trabalho” Disse Lourenço do outro lado do telefone. E continuou.

“A carrinha que parou ao vosso lado é para vos transportar. Como já deves ter-te apercebido, eu não vim a tua casa para ver o imóvel, nem a tua mulherzita irritante. Digamos que vim aqui buscar uma garantia de que tu te vais portar bem.”

“Canalha… Quando eu te apanhar nem vais ter tempo de falar, e quando voltares a tocar o chão já estarás morto. Cobarde…” – Disse Pedro quase a espumar de raiva.

“Mary, temos de entrar naquela carrinha. Ela vai-nos levar ao Othelo.”

“Eh pá, espera lá… Com quem estavas tu ao telefone então?”

“Era o Lourenço… Ele raptou a Teresa como segurança colateral.”

“Porra pá, esta cena vai de mal a pior”

“Que queres que faça? Queres que arrisque a vida da Teresa?”

“Tu fazes bem a ideia do que nos pode acontecer se cairmos nas mãos do Lourenço, não sabes? Lamento, mas não temos alternativa… Temos de optar pelo bem maior, a nossa querida Madeira.”

Pedro baixou a cabeça até tocar com ela no tablier do automóvel. Não consegui conter as lágrimas, afinal, podia já não gostar dela, mas era a sua esposa, tinham passado bons momentos juntos.

O casamento de ambos tinha-se deteriorado com o tempo. A ausência de filhos, muito por culpa dele, que não queria, pensando precisamente que, com a vida que levava era um risco demasiado alto.

Teresa nunca tinha compreendido, como podia ela compreender… Para ela, ele era um simples vendedor de jantes.

Agora cabia a ele decidir sobre o destino dela, como se fosse um juiz e carrasco e ela estivesse no corredor da morte à espera da execução.

Mas a decisão estava tomada… Recompôs-se como pôde. Tirou a arma do coldre por debaixo do braço e engatilhou-a.

Mary seguiu-o nesse ritual.

 

Abriram as portas do carro quase em simultâneo e dirigiram-se para a carrinha.

Já não havia volta atrás. De um lado Othelo e o futuro da organização que, a todo custo havia que resgatar. Do outro Teresa, que seria sacrificada para poderem conseguir esse fim.

 

(continua)

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Em busca de Othelo – Parte II

Dezembro 22, 2007

A primeira sensação que o assalta é de um frio imenso. Quase não sente as extremidades dos dedos e das orelhas. Parecia que estava dentro de um frigorifico.Depois, uma dor de cabeça lancinante, parecia que lhe tinham espetado uma agulha no cérebro.

Com custo começa a abrir os olhos.

“Poooorrrrrraaaa… Mas que é isto?”

Tentou levantar-se para se aperceber que par de olhos eram aqueles que o fitavam, mas não conseguiu, tinhas as mãos e os pés atados.Rolou para o lado para se afastar daqueles olhos sinistros, mas eles pareciam persegui-lo. Eram uns olhos sem brilho e parados. Olhou melhor e apercebeu-se do que era.

“Ufa… São só um carapaus. Carapaus…??? Que diabo faço aqui, com um cardume de carapaus congelados como parceiros?”

Ouve passos. De repente a porta da arca frigorifica abre-se deixando entrar uma luz forte do exterior.De seguida, uma voz que vinha da luz, como se de uma entidade divina se tratasse, ecoa.

“Então o nosso prisioneiro, dormiu bem?”

A voz era de um homem. Tinha um sotaque característico, o acentuar dos rr’s deixava adivinhar que se tratava de alguém oriundo da península de Setúbal, ou então germânico.Tentou fixar a cara do interlocutor mas a intensidade da luz impedia-o de o fazer.

 Vamos ver se os seus amiguinhos cumprem com o combinado, senão vais fazer uma visita às tainhas.”

“ Acho melhor não, olhe que já me afeiçoei a este carapau e ele é muito ciumento.”

“Olha , olha… Temos um engraçadinho… Não te vais rir depois de falares com o meu colega alemão…”

“Paffff…”

Vinda aparentemente do nada uma mão aplicou uma bofetada no interlocutor de Othelo.

 “Já te disse para terres tento na língua, Schwein …”

A voz que agora ele ouvia era de outra pessoa. Era uma voz fina, quase feminina, com sotaque germânico indiscutível.

“Eh pá, voltas a tocar-me, nem sei que te faço…”

“Schiuuu, tá calado e trrás o menino parra a saleta, schnell. Mas antes dá-lhe um banho de perrfume, que o cheiro não se aguenta. Ainda gostava de saberr de quem foi a ideia brrilhante de o trazerrem parra aqui?”

“Que querias, em Matosinhos não havia outro local com…”

“Pafffff…”

Scheiße. Essa tua língua ainda vai serr a tua morrte.”

“Mau, mau Maria. Querem ver…”

“As meninas se quiserem podem resolver isso no quarto, não?”

“Tu cá parra mim tens a mania que és engrraçado. Vamos verr como te rris depois de levarr com o meu wurst na crremalheira, heheheheh…”

Othelo foi literalmente arrastado pelo chão até um compartimento onde lhe despejaram em cima uma água perfumada cujo cheiro em pouco ou nada melhorava o que já estava entranhado nas roupas e corpo, devido à estadia na câmara frigorifica.Sentaram-no noutra sala, em frente a uma mesa. Ao fundo havia um candeeiro com uma luz muito forte direccionada para a cara dele.Apercebeu-se de alguém ter entrado mas quando olhou para ver quem era sentiu uma dor lancinante na cara, como se lhe tivessem batido com um ferro. Ficou a sangrar do sobrolho e sentiu que dentro da boca havia algo solto. Era um dente.

“Espero que tenha sido o dente do siso, já tinha a cirurgia agendada para a semana. Assim poupo 150 €. Nem sei como lhe agradecer?”

“Folgo em saberr que tas de bom humorr… Assim vai serr mais fácil arrancarr-te o que querremos saberr, não é?”

Othelo cuspiu o dente para o chão e endireitou-se na cadeira. Preparava-se para o que estava para vir.

“Os meus clientes gostarriam de saberr alguns porrmenorres da tua viagem a Lisboa.”

“Eh pá, tão com azar então. É que eu já não vou a Lisboa desde o passado mês de Julho. Fui lá ver o Porto com o Benfic…”

“Paff…”

A violência da bofetada foi tal que parecia que a cabeça dele is saltar dos ombros.

“Mentes… Sabemos que estiveste em Lisboa na semana passada, agente Petrov.”

Othelo demorou um pouco a recompor-se da pancada, Voltou a endireitar-se na cadeira, tentou fitar o seu interlocutor através da luz intensa mas sem sucesso.

“Uiii, estamos mal amigo. Vais ter muito que explicar aos teus clientes. É que eu não sou esse Petrov que procuras. Chamo-me Othelo e volto a dizer-te que não sei do que falas, nem fui a Lisboa coisa nenhuma.

O seu interlocutor fez um esgar de raiva. Levantou-se e dirigiu-se ao seu colega que estava junto à porta.

“Onde estão os documentos deste individuo?”

“Err… Documentos, err…”

“Anda, mostra-mos, schnell.”

“Errr… Documen… Ahhh, já sei!! Pousei-os em cima daquela mesa ali… Já vou buscar. Não precisas de te enervar Riederer. Opss…”

Riederer?… Pensou Othelo. O nome não lhe era estranho. Seria o famoso torturador da Gestapo Wolfgang Riederer.

“Wolfgang… Wolfgang Riederer.”

“Vês idiot, este fulano é mais inteligente do que tu, paspalho. Devia matar-te de imediato, Schwein.”

“Agorra já sabes quem sou, também sabes o que te esperra se não colaborrarres.”

Wolfgang Riederer tinha sido um famoso torturador da Gestapo. Conhecido como “O Palhaço Patola” por utilizar uma técnica de tortura consistia em levar os torturados à quase loucura através das cócegas aplicadas aos pés e sovacos com penas de ganso patola, e só de ganso patola.O seu assistente trouxe finalmente os documentos apreendidos e entregou-os a medo a Riederer.Riederer franziu o sobrolho ao mesmo tempo que lia, incrédulo, os papeis que lhe haviam sido entregues.

“Parrece impossibel… Tu não és capaz de fazerr nada bem? Levem-no para dentrro novamente, rrealmente não sabe de nada, sabes porrquê ESTÚPIDO? PORRQUE ÉS UMA BESTA, TENS O CÉRREBRO DO TAMANHO DE UMA AMIBA.”

Disse Riederer aos berros.

“Vamos terr de mudarr de estrratégia… Que horras são?”

“São 14:50…”“Temos só nove horras para o encontro. Vai ser aperrtado mas acho que tenho a solução. MAS TU NÃO VENS COMIGO ESTÚPIDO, FICAS AQUI A CUIDARR DO PRRISIONEIRO.”

Othelo foi novamente enfiado dentro da arca frigorifica.

Entretanto, Pedro e Mary haviam chegado ao local da sede de operações da SIM no Porto. Situava-se nas traseiras de um edifício bem no centro da Rua de Cedofeita. Na frente, a palavra “Calor da Noite” em letras debruadas a néon.Ali funcionava durante a noite um bar de alterne que servia de fachada perfeita às actividades do SIM. Por outro lado era um bar frequentado pelos novos ricos do burgo. Jogadores de futebol, construtores civis, advogados, juízes e outros. Este facto tornava a actividade do SIM bastante mais fácil. Ninguém resistia aos encantos das beldades do clube e depois de uma noite bem passada não havia segredo que escapasse das bocas babadas dos clientes.Mary e Pedro  tiveram de bater à porta, àquela hora o clube encontrava-se encerrado.Do outro lado alguém lhes pediu a senha de acesso.

“Com que é que vamos derrubar a republica?” Perguntou a voz de dentro do clube.

Com bananas.” Respondeu Mary.

Acto continuo, a porta abriu-se e os dois entraram. Dirigiram-se para a sala do fundo.

O acesso ao centro de operações era feito através dos lavabos e havia uma entrada para senhoras e outra para homens. O processo era simples. Haviam duas sanitas, uma em cada lavabo, cujo acesso era efectuado através de uma porta que se encontrava fechada, e da qual apenas possuíam chave os operacionais da organização.Assim Mary e Pedro sentaram-se cada um na sua sanita e carregaram na descarga do autoclismo. Ouviu-se um ruído metálico e ambas as sanitas e as paredes por detrás delas rodaram 180º exibindo o interior da sala de operações.Era uma sala acanhada onde mal cabiam os 4 operacionais que durante as 24 horas do dia mantinham o posto em funcionamento. A sala estava equipada com um ecrãn gigante em uma das paredes onde se podiam ver imagens de satélite e imagens das câmaras de vigilância da cidade, cujo sinal tinha sido interceptado pelo SIM.

“Já sabemos o que aconteceu.” Diz DeCosta, mal Mary se aproxima dele.

DeCosta, era o responsável pela contra informação e  pela vigilância remota de todos os operacionais no terreno. Era de longe o membro da equipa que melhores qualificações tinha. Tinha estagiado na “Scotland Yard” no famoso MI5, até que um dia teve de abandonar por um caso de saias. Nessa altura foi convidado pelo governo regional para integrar a SIM, convite que aceitou de imediato, não por ser uma boa proposta de trabalho, mas poeque tinha um fraquinho por Mary, que conhecera numa acção de formação em Londres.

“Onde está ele?” Perguntaram Mary e Pedro quase ao mesmo tempo.

“Calma, calma. Ele está aqui.” Disse DeCosta apontando no mapa para a zona das docas do porto de Leixões.

“Não conseguimos localizar o ponto exacto, o sinal do localizador dele é demasiado ténue para ser captado pelo satélite. Mas sabemos mais” Disse enquanto abria um dossier e espalhava na mesa algumas fotos.

“São estes os responsáveis. Também sabemos que o alvo não era ele.”

“Então quem era o alvo?“

“O alvo era o Pedro. O responsável é o Lourenço, T.P. Lourenço.”

Uma sensação de revolta tomou conta de Pedro. Saber que afinal era ele o alvo e não o Othelo. Por outro lado sabia que a brigada do agente Lourenço era das mais temíveis e que recorreria a todos os meios para conseguir os fins, e isso, corroía-lhe as entranhas como se tivesse bebido um cocktail de acido sulfúrico. (continua)

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Em busca de Othelo – Parte I

Dezembro 19, 2007

Pedro conduz o automóvel a alta velocidade. Cruza os semáforos sem se preocupar com a cor deles, vermelhos, amarelos, nada o faz parar. Vira na Rua de Ceuta e estaciona na Praça Filipa de Lencastre.

Sai do carro  correr e entra no hotel Infante D. Henrique. Entra como se fosse o dono do sitio. O recepcionista tenta interpelá-lo mas é tarde demais já tinha entrado no elevador.

Carrega freneticamente no botão do ultimo piso. O elevador percorre os andares vagarosamente… O tempo para chegar ao ultimo piso parece nunca mais chegar.

O elevador para, a porta abre-se. Pedro dirige-se à suite a passo acelerado.

Bate à porta… Bate novamente… Do outro lado alguém parece dizer, “Já vou…”

Era a voz de uma mulher. Ouve-se o barulho da fechadura. A porta entreabre-se mas Pedro abre-a abruptamente projectando para trás quem estava por detrás.

“Sabia que estarias aqui.” – Disse Pedro ofegante.

“Que se passa? Porque estás aqui? E a estas horas? Perdes-te o juizo?” – A interlocutora estava incrédula com a surpreendente visita.

Pedro fixou-a com o seu olhar.

“Não sabes o que aconteceu?”

“O que foi? Estava a dormir.”

“Raptaram o Othelo…”

“Rapt… Quando? Como? Onde? Quem?”

“Há pouco, levaram-no enquanto telefonava para ti. Como podes não saber? Mentes…”

“Desculpa… A mim não me ligou ninguém esta noite. Ao contrário, eu é que me fartei de lhe ligar. Queria saber de ti. Da viagem a Lisboa. E depois, porque haveria eu de saber do paradeiro dele?”

“O nosso disfarce foi exposto, só pode ter sido isso, de que outra forma poderiam apanhá-lo.”

“Espera, pensa um pouco. Viste quem o levou?”

“Não, estava dentro do pub, ele disse-me que ia à rua fazer uma chamada para ti. Mas o tempo passava e dele nem sinal. Começei a ficar intrigado com a demora. Eis senão quando, a empregada de mesa me traz este papel.” – E entrega-lhe o papel, já bastante amarrotado.

Mary pega no papel e começa a ler.

Mary era a responsável pela SIM da qual Othelo e Pedro faziam parte. Eles eram os operacionais e ela a coordenadora logistica das operações.

A SIM– Serviço de Informações da Madeira, mais conhecida pela Camachorra era a responsável pelo desenvolvimento de acções de espionagem e contra-espionagem com vista à obtenção da independência da madeira em relação ao continente.

A célula à qual presidia com pulso de ferro e determinação, era a responsável pela sabotagem de estudos do governo da república para a instalação de grandes infra-estruturas no continente.

Actuavam como vendedores de jantes, infiltravam-se nos ministérios da metrópole, com o intuito de servir a sempre insaciável vontade de renovar o parque automóvel dos ministérios.

A constante troca de viaturas fornecia-lhes o salvo conduto para entrar nos meandros dos ministérios. Por razões insondáveis, as jantes que vendiam eram bastante pretendidas pelos ministros. Talvez fosse pelo facto de as mesmas poderem ser personalizadas ao gosto de cada um. Por exemplo, o ministro da economia tinha encomendado 30 pares de jantes com raios em forma de pás de aerogeradores. Já o ministro das obras públicas queria os raios em forma de avião com os nomes das quatro localizações possíveis para o futuro aeroporto de Lisboa gravadas no centro. Dizia que, a jante cujo pneu furasse primeiro era onde ele ia construir o aeroporto, por isso mandou por a jante da Ota e a do Montijo do lado direito, tendo dado instruções ao motorista para que não poupasse os passeios.

Mas considerações à parte, o esquema tinha funcionado bem até agora, mas este acontecimento ameaçava a integridade da célula e havia que resgatar Othelo o quanto antes.

Mary pegou no casaco e na sua mala de executiva e saiu com Pedro.

Faltavam menos de vinte e quatro horas para o prazo e tinham de fazer os possíveis por encontrá-lo antes, senão tinham de se expor aos raptores, e isso era coisa que não estava nos planos de Mary.

 

(continua)

 

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O Rapto

Dezembro 19, 2007

“Otheloooo, por aqui amigo…?”

“A que devo a tua visita pá?”

Comprimentaram-se com um longo abraço e uma palmada nas costas, à maneira dos bons amigos.

Othelo aproveitou para murmurar ao seu ouvido…

“Inventa qualquer coisa, precisamos de sair rápido.”

Pedro ficou sem acção por instantes. Como ia ele explicar a Teresa que, acabadinho de chegar, tinha de sair…

Othelo vendo o embaraço do amigo deu a volta à situação.

“Preciso de falar contigo a sós.”

“Desculpa Teresa, mas vou-te roubar o marido por uns momentos.”

“Vamos ali ao café da esquina tomar um copo. Pode ser?”

Teresa não gostou muito da ideia.

“Então Othelo, ele ainda agora chegou e já o queres afastar de mim. Ainda por cima deve estar cheio de fome.”

“Por acaso comia qualquer coisita.” Disse Pedro.

“Nada disso. Anda daí, comes lá uma francesinha.” Replicou Othelo

“Vão lá mas volta em breve Pedrucho, estou com saudades.”

Pedro beijou Teresa no rosto e aproveitou para lhe dizer ao ouvido…

“Pedrucho? Já te disse para não me chamares isso em público, e principalmente com este melga do Othelo por perto.”

“Vai ser um prato cheio com essa história do pedrucho, caramba…”

“Então pá, anda daí, namoras depois. Vais ter muito tempo.”

Pedro voltou a pegar no casaco e saíram ambos para a rua. A noite estava invulgarmente fria para a época, mas o verão desse ano estava também estava bastante atípico. Estava-se em Agosto e a temperatura ainda não tinha subido acima dos 26ºC e naquela noite estavam uns miseros 15ºC e uma nortada de fazer cortar as orelhas.

 Chegaram ao “Caneco”, um pub bastante acolhedor, o lugar ideal para duas pessoas conversarem calmamente e aliviarem o stress do dia.

Sentaram-se numa mesa no canto da sala.

“Então que se passa?”  - Perguntou Pedro.

“Espera, vem aí a empregada de mesa…”

“Boa noite, o que vão desejar os cavalheiros?”

“Winter… Nome engraçado.” – Disse Pedro ao ver o nome da empregada que no crachá agarrado à lapela do uniforme.

“Esse nome vem mesmo a calhar… Com este tempo, hehehehe?”

“É verdade heheheh.” – Sorriu a empregada.

“Então o que vai ser?”

“Eu quero um licor Beirão com gelo” – Pediu Othelo.

“És mesmo parolo pá. Isso lá é bebida de gente…”

“Eu não quero bebidas de gato, quero uma imperial e um prego no pão para começar, por favor.”

A empregada afastou-se e Othelo abeirou-se do amigo.

“Jeitosa a moça… Moro aqui ao lado e ainda não me tinha apercebido deste pub”

“Pedro.”

“Hum.”

“A chefe tá furiosa contigo pá.”

“A chefe? Furiosa? Que culpa tenho eu de não ter podido aceder à net.”

“Olha, a culpa é dela que me arranjou um hotel manhoso onde nem net havia.”

“E para piorar ainda mais, o desgraçado do quarto em que fiquei tinha janela voltada para um bordel. Pode haver coisa pior para um gajo que não vê a mulher durante uma semana.”

“Eh pá, realmente… Mas isso de pouco te vai valer. Ela quer ver-te hoje.”

“HOJE” – Exclamou pedro em voz alta.

“Schiuuuu, pá, fala baixo, então”

“Hoje, nem pensar. Que vou dizer à Teresa?”

“Eh pá, não sei, mas tens de vir.”

“Olha vem aí o comer.”

“Pera lá… Summer? Hahahaha, Há pouco veio cá a Winter e agora a Summer, ui…”

“Somos irmãs gémeas. Aqui têm o seu pedido.”

“Gemeas, ai meu deus… Vocês devem ser o sonho de qualquer homem. Bonitas de morrer e gemeas… Deixa-me ser teu amigo, heheheh.”

“Vá lá, então… Respeitinho é bom e eu gosto” Disse Summer  incomodada com a afirmação de Pedro.

“Othelo! Vou passar a vir comer aqui todos os dias pá. Quem sabe ainda encontro a Autumn e a Spring, vai se lá saber se não são quadrigémeas”

“Anda lá come isso e vamos embora, tenho aqui já 3 chamadas da chefe adivinha o que ela quer?”

“Ela que espere…”

Pedro degustou o seu prego no prato como se fosse a ultima refeição de um condenado.

“Pedro… É a chefe outra vez. Que lhe digo?”

“Dass… Diz-lhe que amanhã falo com ela pá.”

“Ok, ok, eu digo, depois não te queixes.”

“Olha, chama mas é aí a empregada de verão para trazer outro prego.”

“Tas muito calado hoje Othelo, que se passa? Não é só o assunto da chefe, pois não?”

“Eh pá, não. É a Juana. Vai para quinze dias que não a vejo e ela nem dá cor de si.”

“Uiiii, isso é mau sinal” – Disse Pedro franzindo o sobrolho.

“Olha, olha, lá vem a mana de verão. Ai minha rica menina… Se me apareces pela fresca…”

“ Enquanto acabas de comer vou lá fora falar com a chefe, ok?”

“Vai lá, vai…”

Pedro já tinha acabado de comer há quase uma hora e Othelo ainda não tinha voltado.

Demorou este tempo todo a aperceber-se pois tinha estado atento às manas das estações.

Estava a interrogar-se sobre o paradeiro de Othelo quando a mana Winter lhe entrega um papel dobrado.

“Alguém lá fora me pediu para lhe entregar isto.”

“Humm, quem?”

“Não sei, não disse quem era.”

Pedro abriu o papel, dentro encontrava-se a seguinte mensagem:

 

            “Se queres voltar a ver o teu amigo, vem amanhã à meia noite, ao cemitério de agramonte. E nada de policia, senão o jeitoso vai ser comida para tainhas.”

 

Pedro ficou estarrecido, correu com as mãos os bolsos do casaco em busca do telemóvel, mas lembrou-se que o tinha deixado em casa.

Levantou-se, deixou umas notas em cima da mesa e correu até casa. O seu melhor amigo corria perigo de vida, era seu dever salvá-lo.

 

(continua)

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O regresso

Dezembro 19, 2007

- O Porto é tão bonito visto daqui…, pensou ele, enquanto o comboio cruzava a ponte S. João rumo à estação de campanhã.

 

Para trás ficara uma semana difícil. Negociações difíceis com clientes, noites mal dormidas, mas acima de tudo, o facto de se ter visto privado de se encontrar com a sua adorada deusa.

 

Não via a hora de chegar à estação. No comboio não havia net, mas na estação havia um hot spot e ele estava em pulgas para desembarcar.

 

O comboio percorre os últimos metros até se imobilizar na plataforma, mas ele já estava junto à porta espera do momento final em que poderia sair daquela lagarta metálica e ir sentar-se no banco mais próximo, ligar o portátil e finalmente poder falar com ela.

 

23:59 – com um suave guinchar dos travões a composição imobiliza-se. Como um foguete ele sai disparado porta fora e desata a correr pela plataforma até entrar na gare.

 

Senta-se no primeiro banco que lhe aparece, nem se apercebe que quase se sentou em cima da cabeça de um mendigo, que pelo odor deveria estar conservado dentro de uma garrafa de álcool. Mas nada disso o perturbava. Arrancou o portátil da pasta…abriu-o…carregou no botão de ligar e…nada.

 

- POOOOOOOOOOORRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

 

Pombas esvoaçaram, o movimento das pessoas parou como se o tempo também ele tivesse parado. O mendigo deu um salto e caiu redondo no chão, mas imediatamente voltou ao seu sono profundo.

Reparou que toda a gente olhava para ele, também não era para menos. A sua expressão era um misto de terror e desalento. Os olhos esbugalhados e raiados de sangue, o cabelo desgrenhado e os braços no ar segurando o portátil prestes a ser estilhaçado contra o chão, mas parou…, conteve-se, olhou à sua volta e entre dentes comentou…

 

- Trilhei o dedo na tampa, eh eh eh…

 

As outras pessoas voltaram à sua vida, as pombas voltaram aos beirais para dormir.

 

- Como é que me pude esquecer de carregar esta porcaria, porra. Disse para os seus botões.

 

Enfia o portátil na mala e corre…

 

Apanha o primeiro táxi que lhe aparece pela frente e dirige-se para casa.

 

Durante a viagem apenas um pensamento o ocupa, chegar a casa, ligar o computador e falar com ela.

Quando pensava nela até as lágrimas lhe vinham aos olhos, tamanha era a saudade.

Mas em casa sabia que se tinha de conter. Afinal era casado e a esposa não era mulher para brincadeiras.

Uma vez por causa de um mal entendido com uma empregada de mesa num restaurante ficaram sem se falar durante um mês.

Dependia da esposa para manter o nível de vida que mantinha. Todos aqueles gadjets custavam bom dinheiro e não era propriamente com o seu salário de vendedor de jantes que os podia comprar.

Já a esposa, vinha de uma família abastada, com propriedades. Além do mais ela era uma brilhante advogada. Como se conheceram…isso é para outro episódio.

 

O nosso amigo tinha chegado a casa. Ao entrar reparou que havia luz na sala.

Não era normal àquela hora, mas pensou que provavelmente a esposa havia adormecido na sala com ela ligada.

Ao chegar à porta ouviu uma voz de homem e risos que vinham do interior da casa, aí ficou mesmo com a pulga atrás da orelha.

 

- Mau, pensou, tu queres ver…

 

Abriu a porta e ouviu comentar…”olha chegou”.

 

Pousou a mala, tirou o casaco. Nesse instante a esposa abeira-se dele e diz-lhe:

 

- Tens uma visita.

- Uma visita?

- Quem?

- A estas horas…

- É o Othelo, disse-lhe ela.

 

- Othelo, que faz esse gajo aqui a estas horas, boa coisa não deve ser. Disse para si.

 

Armou um sorriso amarelo na boca e dirigiu-se para a sala.

 (continua)