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Rumo a Sul

Julho 26, 2008

A noite caía em Lisboa quando Pedro chegou.

O encontro com Afrodite estava agendado para a manhã do dia seguinte o que o obrigava a procurar poiso para a noite. Optou por uma pensão na avenida de Ceuta, Mondego de seu nome. Estacionou o carro na parte central da avenida, longe da pensão. Temia que aquela viatura pudesse já estar debaixo do olho das brigadas do Francisco, afinal era um carro roubado não mais o poderia utilizar.

Dirigiu-se ao balcão de recepção da pensão e pediu um quarto. Deram-lhe um quarto simples no segundo piso.

-“Trás alguma bagagem consigo senhor?” – Perguntou-lhe o recepcionista.

– “Não só pretendo passar esta noite aqui em Lisboa, amanhã sigo viagem para outro lado.”

– “Muito bem, o seu quarto é no segundo andar, o elevador é ali junto ás escadas, espero que goste da estadia na nossa pensão.”

-“Obrigado.” – Pedro pegou nas chaves e dirigia-se para o elevador quando a voz do recepcionista o voltou a interpelar.

-“Senhor, senhor…”

-“Sim.”

-“Se pretender jantar a nossa cozinha já está encerrada, mas no bar conseguem-lhe preparar uma sandes se quiser?”

-“Não, obrigado, mas não me está a apetecer comer nada. Vou descansar.”

-“Como queira. Ahh!!!, o pequeno almoço será servido entre as sete e as dez da manhã.”

Pedro acenou afirmativamente com a cabeça e entrou no elevador.

A porta do quarto abriu-se e uma lufada de ar fresco veio de encontro a ele. O quarto estava climatizado, sabia bem, pois o dia tinha sido bem quente. Atirou-se para cima da cama e sem que desse por ela adormeceu profundamente.

 

Um calor e uma luz intensa aqueciam-lhe o rosto. A custo abriu os olhos, era dia. De um salto pulou da cama e olhou para o relógio. Sem conseguir ver bem as horas entrou na casa de banho e lavou a cara com água fria. Aos poucos a visão começava a voltar ao normal. Voltou a olhar para o relógio… Dez horas.

-“Porra… adormeci.” – Comentou irritado.

Dirigiu-se ao elevador mas verificou que este não estava acessível, alguém o estava a reter nos pisos superiores, ouviam-se vozes de mulheres em amena cavaqueira.

-“Grandes cabras…” – Disse entre dentes enquanto se dirigia ás escadas.

Desceu as escadas num ápice e dirigiu-se á recepção. Pagou e pediu que lhe chamassem um táxi.

Não tardaram cinco minutos a aparecer o taxi, mas para ele tinha sido uma eternidade, o mail era explicito…

 

“…Pedro tenho de falar contigo urgentemente, vem ter comigo a Lisboa, Docas ás 10:15…

(…)

Amo-te, Afrodite.”

 

 

Dez horas e vinte minutos, o taxi imobiliza-se junto ás docas na zona de Alcântara. Pedro sai do taxi e olha em seu redor. A maior parte dos cafés ainda está fechada. Ao longe vê alguém acenar, era Afrodite.

 

Com o passo incerto lá se dirige para aquela que, embora dizendo que o amava, havia tentado prende-lo, mas não tinha alternativa, tinha de tirar isso a limpo.

 

Afrodite estava radiante, um vestido vermelho, decotado, deixava vislumbrar um colo perfeito. O cabelo longo ondulava levemente com a brisa matinal do rio.

Pedro parou um instante a contempla-la.

-“Vais ficar ai parado a olhar para mim como um basbaque? Senta-te aqui.”

Pedro afastou a cadeira e sentou-se em frente a Afrodite.

-“Não dizes nada? Perdes-te a língua?”

-“Não, não perdi a língua, mas poderia ter perdido muito mais. Traiste-me.”

-“Eu…., a minha traição foi tão grande quanto a tua. Ambos fizemos um bonito papel nesta farsa.”

-“Tens razão, mas esta farsa já custou vidas, o Othelo, a Mary…”

-“Sim eu sei, a morte do Othelo foi uma tragédia, mas a Mary, não fazia ideia que tinha morrido, como foi isso?”

-“Ahhh, foi atingida por um tiro quando escapamos ás brigadas do Francisco.”

Pedro, não tinha confiança em Afrodite por isso achou melhor dar Mary como morta, assim, se fosse uma cilada contra ele, ao menos a Mary seria poupada.

-“Lamento saber…” – Disse Afrodite tacteando a mesa em busca da mão de Pedro para a agarrar e lhe transmitir algum conforto.

Pedro afastou a mão rispidamente e Afrodite, sem jeito recolheu a sua.

-“Mas vamos ao que interessa, afinal que pretendes de mim? É mais uma cilada vossa para me apanhar?”

-“Não Pedro, não é uma cilada. Sabes, os momentos mais felizes que passei nos últimos tempos foram contigo a conversar na net, a trocar confidências, declarações parolas de amor, coisas que me fizeram parecer uma adolescente…”

-“Sim, mas isso não te impediu de me quereres prender, matar até… grande felicidade essa que te proporcionei…”

-“Não sejas tolo, estava a desempenhar as minhas funções.”

-“Ai sim, e o teu relacionamento com o Lourenço? Também estavas a desempenhar as tuas funções, presumo?”

-“Não sejas sarcástico. Sabes perfeitamente que eu já era uma mulher comprometida antes de te conhecer… só não sabias que era com o Lourenço. Mas as coisas entre nós não estavam a funcionar. Descobri que ele tinha uma relação paralela com a actual ministra, a Elora. Grande sacana, paz á sua alma…”

-“Mas que queres de mim agora?”

-“De ti… pouca coisa, afinal já me deste muito durante todo este tempo em que estivemos enamorados online. De ti só quero que estejas a meu lado daqui para a frente.”

-“Para quê? Porquê ao teu lado… como queres que confie em ti agora, depois de tudo o que aconteceu?”

-“Sei que não será fácil, mas nesse aspecto da confiança estamos os dois em pé de igualdade, não é? O que eu quero é retribuir-te toda a dedicação que tiveste para comigo, em resumo, quero amar-te quero dar uma nova oportunidade a nós.”

Pedro olhou nos olhos de Afrodite á procura da sinceridade, da confirmação de que o que estava a ouvir vinha bem de dentro dela. Os olhos de Afrodite não o enganariam, tinha essa convicção, afinal eles são o espelho da alma, pensou.

Procurou as mãos de Afrodite e encontrou-as sobre a mesa á espera das suas. Agarram-se ambos com força mantendo os olhos bem fixos, um no outro. De repente e bruscamente, Pedro largou as mãos e recostou-se na cadeira.

-“Não, não vai dar certo…tu és uma continental, um membro deste bando de sanguessugas que nos tem chupado até ao tutano as nossas riquezas o nosso trabalho. Na net eu era um anónimo que se escondia atrás de um nickname, podia ser qualquer coisa, qualquer pessoa. Será que se soubesses que eu era um ilhéu me terias dado sequer atenção?”

-“Errr… sim, talvez… bahhhhhh, sei lá eu o que poderia fazer se acontecesse isto ou aquilo, isso não importa, o que importa é o que aconteceu de facto, e quanto a isso não tenho duvidas. Amo-te e quero que venhas comigo.”

-“Mas vou contigo para onde, por acaso já te esqueceste que sou procurado pelos teus amiguinhos?”

-“Calma, tenho tudo tratado. Vês aquele veleiro de dois mastros ali ao fundo?”

-“Qual? Aquele branco com a risca azul?”

-“Sim esse mesmo, vamos rumar ao Sul nele.”

-“Estás doida, eu sei lá manejar um barco com dois mastros. Eu a coisa que já naveguei mais próxima daquilo foi um kayak de plástico, e esse não tinha panos para enrolar. E para o Sul para onde? Algarve.”

-“Não sejas parvo. Algarve, puffff… éramos logo apanhados. Vamos para um local onde ninguém sabe quem nós somos. Comprei um bocado de terra numa ilha ao largo de Angra dos Reis, Brasil, é para lá que vamos. Quanto ao manejar do barco, também pensei nisso, anda, vem ver a tripulação que escolhi para manobrar este nosso barco do amor.”

Levantaram-se ambos e dirigiram-se ao barco. À medida que se iam aproximando Pedro reparava em algo de familiar na tripulação que se movimentava em cima do convés, até que de repente reconheceu um dos tripulantes. Correu em direcção ao barco, nem queria acreditar em quem estava a ver.

-“Fidalgo… mas que fazes aqui amigo, que se está a passar?”

-“Pedro que felicidade em ver-te, pensei que nunca mais nos voltaríamos a encontrar. Aquele traidor do DeCosta fez de tudo para que fosses apanhado, foi ele o responsável pela morte do Othelo.”

-“Sim eu sei, sacana, a vontade que tenho de lhe apertar o pescoço… Mas diz-me uma coisa, desde quando percebes tu de barcos e da arte de velejar?”

-“Nada, há-se ser o que deus quizer. Deus e o nosso outro tripulante.”

Nesse instante por detrás de Fidalgo aparece Mary. Pedro nem queria acreditar, abraçaram-se num abraço forte e emocionado.

-“Ahh malandro que te querias ver livre de mim.”

-“Mas como vieste cá ter, como sabiam vocês dois disto tudo?”

-“Eu explico” disse Fidalgo.

-“Tudo começou quando o helicóptero caiu. Nesse dia apercebi-me de que o DeCosta era de facto um agente infiltrado. Descobri entre os papeis que ele abandonou, na sua fuga para Londres, correspondência entre ele e o Lourenço e ainda extratos de uma conta bancária num banco de Inglaterra, com diversos movimentos de depósito feitos a favor dele por empresas que sabíamos serem fachadas da secreta continental. A partir dai só houve tempo para desmantelar toda a organização, despachar o pessoal para o Funchal e desaparecer também.”

-“Espera lá. Mas tu não tinhas sido despachado pelo método UPS para o Funchal?”

-“Isso foi uma manobra de distracção. No dia seguinte à tomada de posse da Elora recebi uma mensagem da Afrodite com informações sobre casas de abrigo seguras para mim em Lisboa e um pedido de encontro, no mesmo local onde vocês se encontraram.

A partir daí é isto que aqui vês, sou marinheiro de água doce mas estou quase a ficar salgado, ahahahah…”

-“E tu Mary como chegas-te aqui?”

-“Deves estar muito preocupado deves. Olha desenrasquei-me. Deixaste-me naquela paragem de autocarro, naquela terra de ninguém. Mas, sabes, sou uma moça sabida… sem dares por ela tirei-te o papel do email e assim foi fácil. Claro também ajudou o facto de pouco depois um ricaço lá da zona no seu carrão passar pela paragem onde me deixs-te e sabes como é, aos meus atributos ninguém resiste, saquei da coxa para fora e zás, se cheirasses o odor a borracha queimada, uiiii.

Nem lhe perguntei nada, entrei no carro e disse-lhe, Oh jeitoso, vamos para o banco detrás fazer esquecer a tua mulher gorda? Ahahahaha, nem queiras saber a pressa do homem a sair do carro para ir para o banco de trás.”

-“Mary… não me digas que foste capaz…?”

-“Cala-te lorpa, achas que sim? Mal ele saiu do carro tomei o lugar dele e zás, tá a acelerar a toda a força. O paspalho ficou a comer poeira, ahahahahah…”

-“És doida…”

– “Ainda passei por ti na auto-estrada, lá ias tu naquela caranguejola, ahahahaha…”

-“Estou sem palavras…”

-“Pois, e nós estamos sem tempo, temos de zarpar o mais rápido possível.” Disse Afrodite enquanto libertava as amarras do barco.

A barra do Tejo havia ficado para trás, navegavam agora em mar aberto sempre com a costa portuguesa em fundo. O mar estava calmo, mas o vento norte soprava com força, abastecendo as velas de energia e impulsionando a embarcação com rapidez.

 

 

Fim.

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Boca do Lobo

Junho 14, 2008

“Que tem escrito nesse papel, Pedro?”

Pedro leva a mão ao bolso da camisa, retira um papel branco, dobrado e entrega-o a Mary.

“Lê tu mesma.”

Mary desdobra o papel e começa a ler. Era uma mensagem de correio electrónico cujo remetente era nada mais nada menos que Afrodite.

“É pá!!!! Mas esta gaja tem cá um descaramento, de início queria-nos tirar a tosse e agora vem com estas falinhas mansas, bahhh. Não me digas que acreditas no que ela escreveu aqui?”

Pedro não respondeu, não queria responder. Afinal a pergunta que Mary lhe fazia já ele a tinha feito a si próprio vezes e vezes sem conta.

“Pedro… eu fiz-te uma pergunta! Responde por favor. Diz-me se acreditas no que está aqui escrito.”

“Porque não, se tudo o que está aí escrito faz sentido.”

“Ainda gostas dela, não é?”

“Que tem isso a ver?”

“Responde…tem tudo a ver, porque só uma pessoa cega pelo amor consegue acreditar nisto que está aqui escrito.”

“Se gosto dela ou não…, não sei. Depois do que se passou connosco também eu acho que existem algumas explicações a dar por ela… e por mim, mas acho que ela está a ser sincera e o que ela diz faz muito sentido.”

“Mas tu acreditas que o DeCosta é realmente um agente infiltrado?”

“Pensa Mary. Quem mais sabia dos nossos passos depois da nossa fuga do desastre de helicóptero? Como sabiam eles que carro alvejar na auto-estrada, quando tudo foi tratado entre o libanês e o DeCosta?”

“Realmente é verdade, mas não quer dizer que tenha sido o DeCosta. Porque não pensas no Fidalgo, por exemplo?”

“Sabes, junto com esse e mail tinha um outro na minha caixa de correio que eu não imprimi.”

“Era do Fidalgo?”

“Precisamente.”

“Que dizia?”

“Dizia que o DeCosta não aparecia na sede desde ontem, mas que fora visto no aeroporto de Sá Carneiro a embarcar num voo para Londres. Dizia também que tinham desaparecido todos os ficheiros referentes a mim e a ti, bem como toda a investigação que eu e o Othelo andávamos a fazer.”

Mary estava estarrecida. Nem queria acreditar em tudo o que ouvia.

“Mas tu acreditas no que o Fidalgo te disse? E não será ele o infiltrado, escrevendo isso para incriminar o DeCosta?”

“Conheço o Fidalgo desde miúdo. Éramos vizinhos e grandes amigos, tenho nele uma confiança total.”

“E o Fidalgo que vai fazer agora?”

“Ele já fez. Fugiu para o Funchal. Alias o mail já foi enviado de lá.”

“Como consegui ele escapar?”

“Utilizou o método UPS.”

“Método UPS? Que método é esse?”

“He he he, é um método que eu e ele desenvolvemos para aplicar em caso de emergência, que consiste em arranjar um caixote de cartão grande o suficiente para caberes lá dentro. Depois compras duas pizzas e uma garrafa de dois litros de refrigerante. Com a ajuda de um amigo de confiança metes-te lá dentro, o amigo fecha a caixa e remete-a como encomenda especial para o Funchal pela UPS. Como vês é simples e eficaz.”

“Ah ah ah ah , só espero que ele não tenha tido vontade de ir á casinha.”

“Sim, pensamos nisso também, por isso além da pizza e do refrigerante levou também um garrafão de água de cinco litros para poder mudar a água ás azeitonas. Quanto ás outras necessidades há que aguentar. Afinal é sempre melhor que ser apanhado pela polícia secreta, não é?”

Pedro parou o carro parou na berma da estrada. Ao longe uma placa azul assinalava um nó da auto-estrada.

“Porque paramos Pedro?”

“Mary, eu vou para Lisboa. Vou encontrar-me com o meu destino, por isso acho que não seria justo obrigar-te a ir comigo, ficas aqui.”

“Mas.. mas… aqui? No meio do nada?”

“Tens ali á frente uma paragem de autocarro, dali vais para onde quiseres.”

“Separamo-nos ao fim de tantas peripécias que passamos. Vamos fugir como fez o Fidalgo, não sejas idiota, vais cair numa armadilha.”

“Eh eh eh eh, já viste bem o tamanho do caixote que seria necessário para nos levar os dois?”

“Estás-me a chamar gorda?”

“Não… não, só te digo que nós os dois dentro de um caixote tinha de haver espaço para a malandrice, eh eh eh…”

“Tonto, vou ter saudades tuas.”

“Eu também minha loira louca.”

Os dois amigos abraçaram-se emocionados. Mary saiu do carro e viu Pedro afastar-se a grande velocidade rumo ao seu destino, rumo a Afrodite.

(continua)

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Fraquezas da carne

Junho 4, 2008

A noite caíra. Pedro e Mary aproveitaram para se esgueirarem pelas ruas desertas. Hora de jantar e nem vivalma nas ruas. De dentro das casas vinham os ruídos característicos das famílias sentadas à mesa a compartilhar a refeição, aqui e ali o barulho dos televisores falava mais alto. Era dia de jogo grande da liga dos campeões, isso ajudava a explicar o porquê de não haver gente na rua, afinal não era todos os dias que dois grandes clubes portugueses disputavam a final da liga milionária, Porto e Sporting.

Pedro e Mary cruzaram a vila de ponta a ponta, havia horas que não ouviam nem viam sinais dos helicópteros negros a cruzarem os céus em sua busca. Sabiam, no entanto, que tal nada significava, ou melhor, significava que muito provavelmente teriam de ter ainda mais cuidado pois a eventualidade das buscas se efectuarem em terra era forte, afinal de contas não existiam sistemas de rastreio nocturno, haviam sido cortados do orçamento das forças especiais para dar lugar a um jogo de jantes para a viatura oficial do ministro das finanças.

A saída da vila, um pequeno café chamava por Pedro como as sereias chamam os marinheiros em alto mar, só que não era com musica que o apelo era feito senão com um cartaz com letras pretas em fundo branco dizendo, “HOJE HÁ LEITÃO”.

Pedro olhou para Mary como que a confirmar a visão que tivera e antes que esta esboçasse qualquer reacção já ele tinha irrompido café adentro.

O estabelecimento estava vazio. Por detrás do balcão uma mulher gorda de avental e camisa sem mangas aproximou-se do esfomeado cliente. Mudou o palito de um canto da boca para o outro a boca a esboçar um sorriso atrevido.

“Boa noite… O que vai ser jeitoso?”

“Leitão… Quero leitão…”

“E para beber?”

“Espumante, claro… Bruto…”

“Bruto, é?… Espero que não jeitoso.” Disse entre dentes.

“Ah… Que disse?”

“Nada, nada… E o side car que vai querer?”

“Side car…? Está-se a referir a mim?”

“Sim madame, que vai ser?… Não sei como há homens que gostam destas trica-espinhas”

“Desculpe… Estava a falar comigo?”

“Euuuuu… não, a riqueza deve estar a ouvir mal.”

“Pedro, estás a ver esta lambisgóia badoxa que se está a meter comigo. Oh pá, tu come lá esse malfadado leitão e que te saiba bem. Considera este um sacrifício que faço por ti.”

“Bahhh, não leves a sério, não vês que a fulana é uma descompensada sentimental, dá-lhe um desconto.” Disse Pedro baixinho ao ouvido de Mary.

“Então a menina já sabe o que quer?” Perguntou a mulher gorda lançando um olhar de desdém.

“Quero uma sandes de presunto e uma cerveja gelada.”

“A menina tem nome?” Perguntou Pedro.

“Ai rico… Menina, hihihihih, já ninguém me chama assim desde desde os meus tempos de catequista. Chamo-me Brigida, mas os amigos chamam-me Moby.”

“Pffffffffffffffffff”

Mary cuspiu a cerveja que havia engolido e soltou uma gargalhada.

“Que foi riqueza… Tinha espinhas a cerveja?”

“Não, nada, engasguei-me senhora Dick. Pffffffffffffff”

“Ai querem lá ver que vou estrear este bastão de baseball que o meu Almerindo me mandou dos estates nos ossos deste palito loiro.”

“Olhe lá se o palito não lhe fica atravessado na boca.” Disse Mary levantando-se da cadeira e assumindo uma posição de confronto.

“Mary senta-te, por favor, se há uma coisa que não queremos é dar nas vistas, ok.”

“Oh jeitoso, segura lá a língua da tua mariazita porque senão vamos ter farinha de pau hoje.”

“Mary, acalma-te lá, fica aqui sentada que eu vou dar duas a abater à badoxa.”

“A menina por acaso não tem um computador aqui no café, pois não?”

“Por acaso até tenho jeitoso, porque perguntas?”

“Precisava de ver os meus mails, sabe ando todo o dia fora da firma a vender e depois ao fim do dia tenho de ver os mails. Normalmente uso o meu portátil, mas hoje por azar o nosso carro avariou e teve de ser rebocado e eu esqueci-me dele no porta-bagagens .”

“Anda aqui à minha salinha que eu deixo-te mexer em tudo que quiseres.”

“Ahahahaha…obrigado mas só preciso do computador.”

“Pelo sim pelo não eu faço-te companhia. Fica aí o palito a tomar conta da casa.”

“Mary eu vou ali dentro consultar os meus mails no computador desta menina e já volto.”

“Vai lá vai, mas vê lá se ela quer que lhe abanes a barraca.”

Pedro sentou-se em frente ao teclado, a mulher gorda pendurou-se nas costas dele encostando a cara ao ouvido dele murmurando.”

“Sabes… Quando o meu Almerindo me mandou o bastão eu pensava que era para outra coisa, o malandro só pensa em sexo, é cá um tarado… Só depois da primeira noite é que reparei no bilhete que vinha junto com o bastão a explicar a utilidade daquilo. Eu bem que tentava ver onde raio se metiam as pilhas, mas nunca dei som o sitio, pensei, deve ser daqueles manuais, estes americanos têm uma cabeça para as invenções, hec, hec, hec…”

“Sim, sim…”Balbuciava Pedro sem prestar a menor atenção ao que a mulher lhe confidenciava, estava concentrado num mail que acabara de receber.

“Posso usar a impressora?”

“Oh rico usa o que quiseres.”

“Acho que já tenho tudo o que queria. Obrigado.”

“Pois, até pode ser… mas eu não…”

Pedro é entalado contra a parede e a mulher gorda com um movimento brusco arranca-lhe a folha de papel da mão e enfia-a cintura abaixo.

“Mas então, dê cá isso. Minha senhora, acho que há um mal entendido aqui.”

“Ai agora sou senhora, é? Ainda há pouco era menina… Como o tempo passa depressa. Sabes este escritório também tem uma cama, é muito versátil.”

A mulher afasta-se de Pedro e agarrando-lhe a camisa tenta levá-lo para o quarto.

“Mary… Ajuda-me…” Gritava Pedro desesperado.

Mary do outro lado do balcão nada ouvia de tal forma estava entretida a degustar a sua sandes de presunto.

Na rua em frente ao café duas viaturas de cor escura param bruscamente, de dentro saem quatro homens vestidos de negro e dirigem-se ao interior do café.

Mary apercebendo-se dos movimentos no exterior do café levanta-se e dirige-se para a parte detrás do balcão em direcção ao escritório para onde vira Pedro entrar.

Ao cruzar a porta ouve os apelos de ajuda de Pedro. Seguindo o som da voz de Pedro dá de caras com ele por baixo da frondosa mulher, com um movimento brusco consegue desequilibra-la atirando-a ao chão e assim resgatar Pedro daquele cárcere carnal.

Pedro ofegante apanha o papel do chão agarrando-se a Mary procurando apoio.

“Não temos tempo para isso, temos companhias indesejáveis. Isto deve ter saida para as traseiras, não?”

“Deve ser por aquela porta.” Disse Pedro apontando para a porta ao lado da cama.

De facto aquela porta dava para um pequeno quintal onde existia um limoeiro e uma horta. Ao fundo um pequeno anexo que lhes pareceu ser uma garagem, pois confinava com o caminho que contornava o café e o terreno nas traseiras.

Ao abrir a porta do anexo vêm confirmadas as suas suspeitas. Lá dentro um automóvel, um mercedes 180 de 1975, aparentemente em bom estado.

Pedro procura no interior as chaves do dito e para espanto seu lá estavam elas direitinhas na ignição.

“Tipico de badoxas, heheheh… Nem se dão ao trabalho de guardar as chaves do carro por preguiça.” Comentou Pedro.

“Também já viste se elas traziam as chaves no bolso das calças como é que a conseguiam tirar de lá depois de sentadas?”

“Mary abre a porta da garagem e vê se está alguém por aí.”

A pequena rua encontrava-se deserta. Ao sinal de aprovação, Pedro arranca abrandando no exterior da garagem para que Mary entre, aceleram pela ruela abaixo.

Entretanto no interior do café os homens de Francisco encontram a dona do mesmo e trazem-na à presença do seu lider.

“Ora ora… que temos nós aqui? Onde está o casal maravilha?”

“Quem são vocês? Que querem de mim?”

“Diz-nos onde está o casal maravilha e não te incomodamos mais.”

“Esteve aqui um casal, sairam pelas traseiras.”

Francisco dá instruções a quatro dos seus homens para irem verificar as traseiras do edifício.

“Que queriam eles daqui?”

“Além de comer o rapaz pediu-me para aceder ao computador, disse-me que eram vendedores de não sei bem o quê, e que precisava de ver a caixa do correio dele.”

“Leva-me ao computador.”

Com um toque no rato Francisco activa o computador abrindo de seguida o programa de correio electrónico, mas a sessão havia sido encerrada e não havia maneira de obter a informação que Pedro havia obtido momentos antes.

Irritado vira-se para a dona do café agarrando-a pelo braço com força.

“Que mais fez ele neste computador?”

“Ehrrr…Nada… além de imprimir um dos mails não fez mais nada.”

Entretanto voltam os homens que tinham ido investigar as traseiras do edifício, transmitindo de imediato a Francisco o que viram nas traseiras.

“Que havia na garagem nas traseiras?”

“O meu carro… havia??? Ai valha-me deus roubaram-me o carro, grandecissimos filhos da p…”

“Que carro era, marca, modelo e matricula, rápido não tenho tempo a perder”

Francisco e os seus homens entram nos respectivos carros e arrancam a toda a velocidade.

 

(continua)

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Poderosa Afrodite

Março 24, 2008

 Afrodite olhou para o escritório com um sentimento antecipado de nostalgia e saudade, afinal havia passado naquele espaço os últimos 3 anos da sua vida.

Em cima da mesa um “post it” fê-la regressar à realidade,

Não esquecer tomada de posse

Nova ministra

10:30.

Sentiu o sangue a fervilhar-lhe nas veias, não só tinha de rever aquela mulher como ainda tinha de lhe sorrir e apertar a mão cordialmente. “Repugnante criatura…” murmurou por entre os dentes. Na memória estava ainda aquela noite em que vira Lourenço, o seu Lourenço, envolver-se nos braços daquela mulher com uma entrega e luxúria que ela pensava ser a única usufrutuária. Afinal enganara-se. Mas agora que Lourenço desaparecera via nela a única destinatária de toda a sua revolta.

Senta-se junto ao computador, abre a sua caixa de correio e escreve uma mensagem enviando-a de seguida para o destinatário.

Pegou na caixa de cartão que a secretária se encarregara de lhe fornecer, olhou para o relógio, eram ainda nove horas da manhã, tinha tempo suficiente para arrumar as suas coisas e encaminhar-se para a cerimónia de posse.

Palácio de Belém 10:33.

Afrodite entra na sala. Sente os olhares de todos caírem-lhe em cima.

“Peço desculpa pelo atraso…” Disse em voz baixa.

“Vamos lá começar com a cerimónia. Tenho a minha agenda sobrecarregada hoje.” Disse o primeiro ministro num tom ríspido, olhando para Afrodite de soslaio.

A cerimónia lá começou com um pequeno discurso do Presidente da república sobre a necessidade de manter a segurança das populações como prioridade de um estado de direito. O discurso terminado passaram ás assinaturas do livro de actas. Elora é convocada a assinar. No momento em que passa defronte de Afrodite lança-lhe um olhar de desprezo dizendo entre dentes, “Falhada.”.

Afrodite num gesto irreflectido deixa extravasar toda a raiva que sentia por Elora e prega-lhe um valente pontapé na parte interior do joelho que faz com que Elora se estatele, redonda no chão.

Um grande bruahhhh ecoa pela sala, Elora, humilhada pela situação, levanta-se, ajeita o vestido e dirige-se à mesa onde um secretário embasbacado com o que acabara de presenciar, lhe estende a mão com uma caneta. Elora pega na caneta e proferindo as palavras da praxe assina o livro. Concluído o acto, levanta a cabeça e encara Afrodite com um olhar esgazeado, como uma leoa a quem lhe roubaram uma cria e o autor desse roubo está em frente a ela.

Entrega a caneta ao secretário, cumprimenta o presidente da república, o primeiro ministro, ficando depois junto a eles aguardando os cumprimentos da praxe.

Afrodite não entra na fila para os cumprimentos, vira costas e dirige-se para a porta de saída.

Antes de chegar à porta uma voz por trás chama-a. “Afrodite.” Era Elora. Ela vira-se de imediato esperando alguma acção de represália por parte da oponente, mas Elora não se aproxima dela. Com a voz rouca pela raiva contida diz-lhe,” Isto não vai ficar assim.”

“Ah…, não querida. Vai inchar, mas com gelo passa…”

Afrodite virou costas com um sorriso estampado nos lábios. Tinha tido o seu momento de glória. Parte da raiva que sentia havia-se dissipado, podia agora seguir com a sua vida e encarar o futuro com novo alento.

Entretanto, algures na auto-estrada do Norte o trio fugitivo segue a alta velocidade rumo ao Porto.

“Ainda falta muito para a Bairrada???” Perguntou Pedro pela enésima vez.

“Oh pá, tu és mais chato que os miúdos de escola.” Respondeu Othelo impaciente.

“Olha acabamos de passar por Coimbra, a área de serviço da Mealhada é já ali, aguenta mais um pouco e para de me perguntar isso.”

“Área de serviço!!!! Mas eu não quero comer na área de serviço. A comida lá não presta, eu quero ir a uma casa de leitões a sério…”

“Ok, ok… saímos na saída para a Mealhada e vamos aos leitões. Tu com fome não há quem te ature!”

CRASHHHHHHH

O impacto estilhaça o vidro da frente por completo. O carro vira bruscamente para a esquerda batendo violentamente no separador central da auto-estrada entrando em capotamentos sucessivos até se imobilizar na berma algumas dezenas de metros mais à frente.

O acidente faz parar outras viaturas que seguiam na mesma faixa de rodagem com os respectivos ocupantes a dirigirem-se para o carro acidentado na tentativa de auxiliar as vitimas.

Pedro sente que alguém o está a puxar pelos braços fazendo o corpo deslizar pelo tejadilho do carro capotado. Abre os olhos e vê Mary encostada ao separador lateral com sangue a escorrer pela face, mas a falar com os transeuntes que entretanto se haviam juntado e lhe faziam perguntas sobre as causas de tão aparatoso acidente.

Voltando a sentir as forças regressarem-lhe ao corpo tenta em vão levantar-se mas está demasiado atordoado para se manter em pé e volta a sentar-se no chão.

“Othelo, onde está o Othelo???” Pergunta com voz tremula.

“Lamento amigo mas o condutor não se safou. Era seu amigo, parente?”

A noticia transmitida por um homem com farda de bombeiro aterrou como uma bomba.

“O quê? O que é que você me está a dizer homem? Eu quero vê-lo, ajude-me a pôr em pé. Você não faz ideia do que está a dizer, ele não pode ter morrido. Não pode, ouviu…”

Pedro agarrou-se à farda do bombeiro aos berros. Parecia que tinha a alma fora do corpo. Ajudado pelo bombeiro aproximou-se do lugar do condutor onde jazia Othelo inanimado. O corpo apresentava diversos ferimentos na cara, provocados pelo acidente, mas foi um particular ferimento no peito que fez Pedro parar horrorizado. Um ferimento de bala. Era indistintivamente um ferimento de bala. Alguém havia alvejado Othelo.

Freneticamente começa a olhar em todas as direcções tentando vislumbrar o atirador. Atrás deles um viaduto cruza a auto-estrada. Certamente teria sido daquele local que teriam alvejado Othelo.

O olhar volta-se para o amigo, as lágrimas a caírem-lhe pelo rosto.

“O meu amigo, meu irmão, como puderam fazer isto, logo a ti…”

“Mary… Mary!!!”.

“Calma… Ela está além, mas está bem. Apenas algumas escoriações na face.”

Pedro acerca-se de Mary abraçando-a chorando e soluçando como uma criança.

“Mataram o nosso Othelo, Mary… Mataram-no…”

O abraço é interrompido pelo ecoar do som de dois helicópteros a sobrevoar o local iniciando manobras de aterragem na faixa de rodagem.

“Mas que raio de coisa, quem são estes gajos. Do INEM é que não são, ninguém os chamou.” Comentou o bombeiro junto a Pedro.

Pedro levanta a cabeça e reconhece os aparelhos. É Francisco. Foi ele quem esteve por detrás disto tudo. Haviam sido descobertos.

“Mary levanta-te temos de nos pôr em marcha, fomos descobertos.”

“Para onde queres tu ir? Não temos escapatória. O Othelo está morto, estamos no meio do nada, feridos, atordoados, para onde queres ir tu?”

“Por aqui…”

Pedro agarra Mary pelo braço e arrasta-a por entre os arbustos que ladeiam a auto-estrada, saltam a vedação e esgueiram-se por entre o arvoredo.

Atrás deles bombeiros e mirones tentam impedir a fuga pensando na integridade física dos acidentados. Mas o movimento de Pedro é tão rápido que logo os perdem de vista.

Entretanto Francisco abeira-se da viatura acidentada descobrindo Othelo inanimado.

“One down two more to go…” Murmurou esboçando um leve sorriso.

“Quem são vocês? Que fazem aqui?” Pergunta o bombeiro dirigindo-se a Francisco.

“Schiuuuuuu, calminha, calminha…” Interpelou Francisco exibindo o crachá da policia secreta.

“Onde estão os outros passarinhos?”

“Fugiram assim que viram os helicópteros. Foram por ali, mata adentro.”

Francisco virou-se de imediato e com um gesto de mãos deu ordem aos pilotos para porem os aparelhos de novo em funcionamento.

Mata fora, Pedro e Mary corriam com as forças que ainda lhes restavam. Encontraram um pequeno aglomerado de casas. Escondidos atrás dos arbustos, ai permaneceram por instantes observando o movimento na rua e casas procurando alguma coisa suspeita.

(continua)

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Estrada para a Liberdade

Março 8, 2008

 “Gassspppp, puhhh…, puhhhh…. Porra com esta já são três os mosquitos que engulo.”

“Fecha a boca, andas para aí com a tacha arreganhada… Gasssspppp, puhhhhh, puhhhh…”

“Ahahahahahahahaha… Gasssppppp, puhhhh… puhhhh.”

“Ahahahahahahah… ” Riram ambos com a situação. De cada vez que abriam a boca entrava um insecto.

A viagem desde Abrantes estava a ser bastante desconfortável, embora enriquecedora em proteínas. O smart, um carro pequeno de dois lugares não deixava outra alternativa aos dois amigos senão viajar quase em pé com a cabeça de fora do tejadilho de lona, que havia sido recolhido.

A viagem até Constância era relativamente curta, em condições ideias, mas o facto de os dois amigos irem quase de pé na traseira do automóvel obrigava o condutor a moderar a velocidade tornando a viagem mais longa do que Pedro e Othelo desejariam.

Othelo repara que à medida que se cruzam com outras viaturas estas lhes fazem sinais de luzes. A principio não havia ligado muita importância, seriam engraçadinhos armados em parvos, pensou ele. Mas agora já haviam passado por eles quatro viaturas e as quatro tinham dado sinais de luzes.

“Encosta o carro… ” Gritou para o motorista.

“Encosta o carro agora.” Gritou mais alto pensando não ter sido ouvido pela primeira vez.

“Já vai, já vai…” Disse o motorista incomodado com a maneira como a ordem havia sido dada.

“Que se passa Othelo?” Perguntou Pedro.

“Temos sarilhos mais adiante.”

“Porque dizes isso?”

“Por acaso não reparas-te nos carros com que nos temos cruzado na estrada? Quase todos eles nos têm dado sinais de luzes.”

“Hummm… Achas que é uma barreira policial na estrada? Pode ser um acidente.”

“Até pode ser, mas eu não quero arriscar.”

“Pedro acho que o Othelo tem razão. Vamos voltar para trás.” Disse Mary.

“Não, para trás não. Vira aqui para Martinchel.”

“Mas isto vai dar a Castelo de Bode!!!” Exclamou o motorista admirado com a mudança de planos. Afinal iam direitinhos para a boca do lobo.

“Acho que é o único sitio que eles não esperam que a gente vá.” Comentou Othelo.

Uns quilómetros mais à frente de facto existia uma barreira policial montada pelos operacionais da secreta disfarçados de agentes da brigada de trânsito.

Francisco acabara de chegar à barreira e dirigiu-se ao oficial que estava responsável por aquele destacamento.

“Alguma novidade?”

“Não, meu comandante. Nenhuma novidade.” Respondeu o operacional precedido de uma energética continência.

“Manda uma viatura até Abrantes. Quero ver se eles pararam em algum lado.”

“Já mandei meu comandante. Acabaram de regressar e nem sinal deles.”

“Além desta estrada que outras estradas têm barreiras?” Perguntou Francisco estendendo o mapa da região sobre o capô da viatura.

“Ainda da estrada nacional em que temos barreiras antes e depois de Abrantes, ainda não conseguimos colocar mais ninguém.”

“Porra homem, como podemos controlar isto se temos uma infinidade de estradas entre este ponto e Abrantes. Que diabo de operação estamos aqui a levar a cabo?”

“Meu comandante, pedi reforços a Lisboa, mas ainda não me enviaram nada. Com os homens que disponho não posso cobrir tudo.”

“Malditos cortes orçamentais. Estes gajos do governo pensam que podemos fazer omeletes sem ovos. Chama o apoio aéreo, rápido.” Disse Francisco irritado.

“O apoio aéreo estará aqui dentro de 15 minutos, ainda não terminaram a operação de reabastecimento.”

“Porra, porra, deixa lá eu chego a Tancos mais depressa do que eles chegariam aqui.”

Francisco entra no carro e dispara desenfreado em direcção à base de Tancos.

Lisboa, Palácio de S. Bento, 10:15.

“Bom dia Sr. Primeiro Ministro.”

“Não me venhas com essas falinhas mansas de Sr. Primeiro Ministro, Afrodite. Fizes-te merda, merda da grossa.”

“Merda, eu fiz merda? Devias ter vergonha de me atirar com isso à cara. Perdi quase todos os operacionais num só dia e ainda tens o descaramento de me dizer que fiz merda.”

“É verdade. Perdes-te quase todos os operacionais num só dia para uma organizaçãozeca de plantadores de bananas armados em espiões, isso não é fazer merda. Não, acho que o nome fica muito aquém daquilo que se passou.”

“A tua hipocrisia é digna do cargo que ocupas. Não fossem os cortes orçamentais que  o teu ministro das finanças tem vindo a fazer e eu teria a equipa que necessitava. Bem treinada, bem equipada. Bando de plantadores de bananas!!! Ahahahahaha, estão mais bem treinados que todos os operacionais que tinha sobre a minha alçada.”

“Não quero ouvir mais nada. Coloca o teu lugar à disposição. Direi aos jornalistas que saíste por problemas pessoais. A tua substituta tomará posse amanhã, está tudo tratado com o Presidente da República.”

“Substituta??? Quem é ela? Alguém que eu conheço? Cá para mim deve ser estrangeira, porque não estou a ver ninguém de cá com o juízo todo a aceitar tamanho cargo.”

“Olha, acertas-te… É de facto estrangeira, mas fluente no português. A próxima ministra do interior será a Elora.”

“A Elora!!!!” Afrodite nem queria acreditar, a mulher que lhe havia roubado o homem que amava, roubava-lhe agora o lugar no governo.

“É a Elora. Agora vai, tenho mais o que fazer que ficar a conversar com fracassadas.”

“Fracassada… Olha sabes que mais… Vai-te foder.” Virou costas e bateu a porta com força atrás de si.

A cabeça de Afrodite parecia que ia explodir. O nome Elora não parava de martelar na sua mente.

Saiu do palácio, entrou no carro e disse ao choufer para a levar ao ministério.

Entretanto Pedro, Othelo, Mary e companhia, haviam passado por Castelo de Bode sem problemas. Encontravam-se agora às portas de Tomar.

“Malta, eu não sei se vocês sentem o mesmo, mas eu não como nada de jeito há dias. Dá para pararmos por aqui para repor as energias?”

“Olha, ainda bem que falas nisso.” Disse Mary. “Estou cá com uma larica, era capaz de comer um boi.”

“Pois eu preferia que parássemos numa área de serviço na auto-estrada.” Disse Othelo.

“Ahahahah.” Riram Pedro e Mary em simultâneo. “Estás parvo? Achas que vamos longe desta maneira? Neste carro? Só podes estar a brincar.”

“Realmente, vendo bem as coisas.. Passa-me aí o telemóvel.”

“Para quem vais ligar?” Perguntou Pedro, segurando o telemóvel impedindo que Othelo lhe pusesse a mão.

“Dá cá isso. Vou ligar ao DeCosta, que é que achas? Achas que vou ligar à ministra, é?”

“Precisamos de uma viatura.” Disse Othelo num tom ríspido e directo.

“Então que se passa? Não gostaram da limousine que vos arranjei?”

“Engraçadinho. Olha, ainda estou a catar escaravelhos e abelhas do meu cabelo, grande palerma.”

“Ai sim? Para a próxima vocês dão-me ouvidos. Bom, dirige-te ao stand M2 aí em Tomar, o dono é um tal de Paravane, é cá dos nossos ele tem aí uma máquina mesmo à vossa medida.”

O stand M2 ficava na avenida central de Tomar. Era um stand amplo com bons carros à venda, maioritariamente Mercedes, BMW e um ou outro carro desportivo de grande cilindrada.

Paravane veio recebe-los à porta com um sorriso de orelha a orelha. O sotaque libanês revelou de imediato a origem daquele homem bonacheirão.

“Bom dia, meus amigos.” Saudou Paravane os recém chegados.

“Beirute?” Perguntou Othelo.

“Ohhhh, não meu amigo. Tiro é a minha cidade natal, vejo que o meu sotaque não lhe passou desapercebido. Já esteve no Líbano Sr…?

“Othelo, chamo-me Othelo. Estive sim, em Beirute nos idos anos de 1970.”

“Bonita época para o Libano. Éramos conhecidos como a Suíça do médio oriente.” Comentou Paravane com um  olhar melancólico.

Mary e Pedro olhavam para ambos, limitavam-se a acompanhar a conversa.

“Ahh, estes são os meus colegas, Mary  e Pedro.”

“Ah, sim, sim… senhor Costa já me pôs ao corrente de tudo.”

“Podemos levar uma destas viaturas?” Perguntou Pedro já impaciente todo aquele deferimento entre Othelo e Paravane.

“Estas não… Mas tenho algo na garagem que serve bem para aquilo que procuram. Venham, venham.” Paravane encaminhou os três para uma porta por detrás dele.

Entraram numa garagem pejada de viaturas. A maior parte delas aparentava estar ali à muito tempo, tamanha era a camada de pó que tinham em cima. Olharam em volta e ao fundo, junto ao portão, observaram uma viatura que parecia ser a única que não tinha os sinais do tempo sobre ela.

Aproximaram-se. Paravane, que ia à frente deles, virou-se abrindo os braços, como que a convidar os amigos para junto dele.

“Venham cá, aqui está ele. Uma beleza, o meu melhor carro. Um BMW 735i coupé, que tal, hahhh?”

Othelo, Pedro e Mary ficaram parados a contemplar a máquina. Era realmente um belo carro.

“Caro amigo, não sabemos como lhe agradecer, mas temos de nos fazer à estrada de imediato.”

“Não precisam de agradecer. Faço isto por acreditar na causa.”

Os três amigos entraram no carro. Despediram-se de Paravane e rumaram à auto-estrada do Norte.

“Espera lá… Então e a minha bucha? Não paramos para comer?” Perguntou Pedro desesperado de fome.

“Desculpa, é como te disse, prefiro parar numa área de serviço.”

A seta indicava o desvio para o Porto, há já muito tempo que todos eles ansiavam por regressar à sua base de operações. Sentiam-se satisfeitos por o dever cumprido, mas pedro tinha uma sensação estranha de perda, afinal, em 24 horas havia perdido as duas mulheres da vida dele.

(continua)

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O Resgate – Parte II

Fevereiro 23, 2008

 A noite caíra fria e escura, os três fugitivos caminhavam agora pela berma da estrada. No ar ouviam-se os motores dos helicópteros a cruzarem os céus, ora mais próximos ora mais distantes, iam e vinham numa cadência ritmada.

Ao longe avistam as luzes de uma pequena povoação. Aceleram o passo.

O ruído das hélices dos helicópteros pareciam agora mais fortes. Perceberam que atrás deles uma luz percorria a estrada à sua procura.

“Rápido para as árvores.” Gritou Othelo …

O helicóptero passou por eles inspeccionando a estrada e as bermas com um vagar enervante. Parecia esperar que a qualquer momento, do meio daquele arvoredo, saltassem os três fugitivos como javalis acossados pela matilha.

O aparelho afastou-se e os três amigos puderam retomar o caminho, mas agora caminhavam somente pela berma.

A placa indicava que acabavam de entrar na aldeia de Vale Salgueiro. Era uma pequena terriola, não mais que três dezenas de casas. Aquela hora não se via vivalma na rua. Caminhavam encostados às casas evitando assim expor-se demasiado.

Ouviram um ruído de pratos e pessoas a conversar.

“Ali é o café cá do sitio, vou aproveitar e telefonar ao DeCosta.” Disse Pedro.

Mal Pedro cruzou as tiras mata-moscas de plástico da porta do café fez-se um silêncio sepulcral.

Todos os olhos estavam fixados agora naquele homem que acabava de entrar. Pedro não estava andrajoso, mas estava completamente ensopado, o cabelo molhado, a cara suja com resíduos de lama. Era uma visão quase fantasmagórica.

“Ehh migo, de onde foi você desenterrado?” Perguntou um homem gordo que estava sentado ao balcão.

“Preciso fazer um telefonema, posso usar o telefone?” Perguntou com a voz tremula do frio que lhe começava a invadir o corpo.

“Que é que lhe aconteceu?” Volta a indagar o homem gordo.

“Foi um acidente no rio. Por isso preciso de telefonar com urgência.”

“Ahhhhh, por isso andam estes passarocos pelo ar que na deixam descansar a gente. É que é cá uma barulheira que um home nem pode dormir, porra.”

“Tome, ligue, ligue home, que esta gente anda feita doida à sua procura.” Disse-lhe o dono do café estendendo-lhe o telefone na sua direcção.

“Obrigado…”

Pedro discou o numero, do outro lado uma voz quase mecânica atendeu-o.

“Com que é que vamos derrubar a republica?” Perguntou a voz do outro lado da linha.

“Com bananas.” Respondeu Pedro.

O silêncio dentro do café fez com que a resposta de Pedro fosse perfeitamente audível por todos. Ao ouvi-la olharam uns para os outros sem perceberem bem o que se estava a passar.

“Daqui é Pedro, quero falar com o DeCosta, urgente…”

” Pedrooo, meu grandessíssimo incompetente… Agora que estás enrascado já queres ouvir o que o palerma aqui tem para te dizer, não é?”

“Costa… agora não é o tempo nem o local para essas coisas.” Atalhou Pedro com rispidez.

“Necessito de um ponto de extracção com urgência.”

“Ok, Ok, … vejo que estás na aldeia de Vale Salgueiro… Tens de te dirigir a Abrantes. Lá estará alguém à tua espera.”

“Mas, mas… como sabes que estamos aqui???”

“Já não te lembras? O localizador do Othelo pá… Uiiii, e diz esta gente que é espião!!! Tsst, Tsst.”

“Eh pá, já nem me lembrava. Bom vou-me dirigir para o local, mas em que zona concreta estarão à minha espera?”

“Junto à ponte, dentro de 4 horas. Ahhh … Pedro …Boa Sorte.”

Pedro pousou o telefone. Reparou que à sua volta todos continuavam em silêncio.

“Quanto lhe devo?” Perguntou, dirigindo-se ao dono do estabelecimento.

“Ora essa, não me deve nada, afinal é para uma emergência. Mas diga… vêm-no cá buscar é?”

“Boa noite…” Pedro virou costas e dirigiu-se à porta ignorando a pergunta que havia ficado no ar.

Quando abandona o café ouve-se o burburinho dos seus ocupantes a comentarem em surdina o acontecimento.

Pedro caminhou em direcção ao fim da aldeia onde o esperavam os restantes companheiros de fuga.

“Temos quatro horas para chegar-mos a Abrantes.” Disse enquanto passava pelos companheiros sem parar para ouvir as respostas deles.

“Quatro horas??? Mas daqui a Abrantes são quase 20 km!!!” Exclamou Mary.

“Mais uma razão para não ficarem parados aí a conversar e porem pés ao caminho” Disse Pedro afastando-se do grupo, estrada fora.

Chegaram a Abrantes em três horas e meia. Mary vinha carregada nos ombros de Pedro, exausta e sem forças para caminhar.

Chegaram à ponte sobre o Tejo e debruçaram-se a observar o rio lá em baixo, o espelho de água provocado pelo açude que havia sido construído com as luzes da cidade reflectidas no rio.

“Pedro…que diabo descobriste tu nesta tua última viagem que provocou esta reacção toda?” Perguntou Mary.

“Em seu tempo saberás. Tu e toda a gente.”

Amanhecia, a hora marcada para o rendez-vouz esperado chegava. Junto a eles para um carro pequeno. O vidro baixa-se e de dentro uma voz lançou a pergunta.

“Com que é que vamos derrubar a republica?” Perguntou a voz de dentro do carro.

“Com bananas.” Respondeu Pedro.

“Um Smart???? Vamos ser evacuados num Smart???” Disse Mary incrédula.

Othelo e Pedro riam-se como maluquinhos, encostados ao carro.

“Não sei onde está a graça??? Como podem caber 4 pessoas nesta cabeça de mosca? Expliquem-me como? O DeCosta vai-me ouvir, Oh se vai…”

“Não há crise, queres ver… Abres a capota e eu e o Pedro vamos na parte de trás. Tu vais sentadinha no banco da frente como uma fidalga.” Disse Othelo enquanto abria a capota do carro.

Os três amigos acomodam-se dentro do minúsculo carro e este segue em direcção a Constância.

Entretanto junto às margens da albufeira um grupo de soldados encontra o corpo de uma mulher.

Aproximam-se e verificam que ainda respirava. De imediato procedem à sua evacuação para terrenos mais acima, na margem. O oficial do grupo aproxima-se da mulher reconhecendo-a de imediato, era a ministra Afrodite.

(continua)

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O Resgate

Fevereiro 16, 2008

 Lisboa, 19:45, base aérea de Figo Maduro.

O Audi A6 pára em frente ao helicóptero. De dentro sai um homem vestido de negro com óculos escuros.

Dirige-se aos militares que o aguardavam à porta da aeronave saudando-os com uma continência.

“Bom dia meu comandante.” Saudou-o um dos militares

“Os outros dois agrupamentos já estão dentro dos respectivos helicópteros prontos para seguir à sua ordem.” Prosseguiu o militar.

“Muito bem… Vamos.”

O homem de negro entra na aeronave sendo seguido de imediato pelos soldados que o tinham recebido.

A porta fecha-se e o aparelho levanta voo, seguido de imediato de outros dois helicópteros.

O homem de negro era nem mais nem menos que o comandante Francisco, mais conhecido pela sua alcunha de Comandante After Lab.

Francisco era o director da policia secreta militar, havia sido chamado de urgência à presença do Primeiro Ministro Mendes em pessoa.

As ordens que Mendes lhe transmitira eram claras. Acabar com o carnaval em que se tinha transformado a operação de extermínio da célula da SIM.

Mendes havia-lhe transmitido que um heli se havia despenhado na albufeira de Castelo de Bode. A bordo encontrava-se a ministra do interior, uma brigada da secreta e um prisioneiro. Desconheciam-se as causas que levaram à queda do aparelho.

“Atendendo ao delicado da situação, Francisco, não posso deixar este assunto entregue aos militares de Tancos. Tens de fazer uma operação de limpeza completa do local do acidente.” Disse Mendes a Francisco.

Francisco, militar de carreira, havia servido nos comandos, tendo ficado célebre a sua missão de destruição de importantes instalações militares dos rebeldes guineenses na vizinha Guiné Conacry, durante a guerra colonial.

Finda a guerra, é convidado pela KGB para ingressar nos seus quadros como espião para a Europa ocidental. Viria a receber treino especializado mas acabaria por fugir da então URSS, por divergências em relação ao regime comunista.

Refugia-se em Portugal em local secreto. Com a queda do muro de Berlim, Francisco vê sair-lhe de cima dos ombros um peso enorme. Podia agora circular livremente sem temer ser liquidado pela KGB.

É convidado pelo então primeiro ministro para reformular a desacreditada secreta portuguesa. Tarefa que Francisco executa com elevada eficiência, colocando a secreta portuguesa ao nível das sua melhores congéneres, Mossad, CIA, etc…

Era pois a este homem com uma vontade de ferro e uma sabedoria em tácticas de contra-espionagem acima da média, que Mendes havia pedido para acabar com a operação iniciada por Lourenço.

Entretanto, na ilha, no meio da albufeira de Castelo de Bode, Pedro e os restantes sobreviventes tentam arranjar maneira de saírem daquele local o mais rápido possível.

As equipas de salvamento ainda não haviam chegado, mas nas margens viam-se movimentações de soldados, certamente não passaria muito tempo até que eles fossem encontrados. Havia que fazer qualquer coisa e rápido.

A noite começava a cair, a oportunidade de escaparem sem serem descobertos estava a aproximar-se. Esconderam-se no interior da ilha, entre os arbustos e o arvoredo, aguardando pelo momento certo.

No entanto faltava um pequeno pormenor. Como iam eles sair dali? As margens ainda ficavam distantes da ilha. Distantes de mais para quem tinha acabado de lutar pela vida.

Estava Pedro perdido nestes pensamentos quando Othelo se aproxima com um sorriso de orelha a orelha.

“Já sei como vamos sair daqui.” Disse com visível satizfação.

“Então… que descobriste tu? Algum barco de pescador que tenha vindo para a ilha pescar?”

“Nem mais… Está ali à nossa espera, do outro lado da ilha. Venham…”

“Mas e o pescador? Já tratas-te dele?” Indagou Mary.

“Não se preocupem, esse já serve de comer aos peixinhos. Hoje é dia da caça…”

“Othelo!!!” Exclama Mary indignada.

“Sim, que querias? Deixar testemunhas para contar aos do governo que afinal havia sobreviventes e que entre eles estava a ministra e uns fulanos com sotaque madeirense? Era isso que querias?”

“Não, huh… Não era isso, mas também matar. Podias só o pôr a dormir, não é?”

“Deixa-te de mariquices e entra no barco.”

Já era noite cerrada quando começaram a viagem. Era noite de lua nova, a escuridão era total. Ao longe apenas se viam pequenos focos de luz, ora em movimento, ora parados, certamente seriam as tropas a efectuarem buscas nas margens.

Estavam quase a atingir a margem quando ouvem o ruído de helicópteros a aproximar-se. De repente são surpreendidos pelos focos de luz que perscrutavam as águas como naves alienígenas, à procura de sinais de vida.

Remam agora com mais rapidez e em força. A margem já está quase ao seu alcance.

São atingidos por um dos focos de luz. Foram descobertos. De repente outro e mais outro foco de luz incidem sobre a pequena embarcação. O ruído das pás dos aparelhos é ensurdecedor,

Remam agora como se não existisse amanhã, os remos parecem ter um movimento rotativo contínuo, como hélices, tal é o frenesim com que são manipulados.

Crack, crack, crack, crack…

As balas passam rente às suas cabeças zumbindo umas atrás das outras.

Lançam-se à água, é a sua única salvação. Debaixo de água continuam a sentir os disparos vindos de cima. As balas penetram na água logo perdendo a força. Vão nadando debaixo da superfície afastando-se das luzes e das balas.

Chegam finalmente a terra. Esgotados ainda conseguem um ultimo fôlego para correr para o abrigo das árvores. Pedro, Mary e Othelo…

“A ministra? Perdi a Afrodite…” Grita Pedro.

“Anda, deixa-a para lá, não podemos perder mais tempo, eles estão mesmo em cima de nós.”

(continua)